O futuro do ensino superior

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A procura por ensino superior em Portugal prossegue num crescimento moderado. Entre 2017 e 2021, o seu número de estudantes aumentou cerca de 17%, tendo passado dos 357 mil para os 417 mil estudantes. Não obstante do setor público ter suportado a maior parte deste crescimento (43 mil vs. 17 mil), é a cota de mercado do setor privado que está a aumentar, com um crescimento dos 17% para os 19% neste mesmo período. A procura por ensino superior continua constrangida aos produtos-tipo que as Instituições de Ensino Superior (IES) oferecem no seu portfolio. Ciclos de estudo totalmente presenciais determinam um perfil-tipo de estudante entre os 18-25 anos de idade, recém-finalista do ensino secundário e que deseja continuar a sua formação académica. Com pouca ou nenhuma experiência profissional, vive em casa dos pais e/ou tem a sua formação financiada por estes. Contudo, se analisarmos dados demográficos, percebemos que a tendência é que as IES compitam cada vez mais entre si por cada vez menos estudantes. Em 2018, o número de jovens em Portugal entre os 18-25 anos era de aproximadamente 876 mil; projeções para 2035 preveem que este número decresça 16% para cerca de 734 mil jovens. Ou seja, se nada mudar na estratégia das IES, é muito provável que os seus problemas de sustentabilidade venham progressivamente a aumentar determinados por uma procura progressivamente a diminuir.

A oportunidade é clara: as IES têm de olhar para outro perfil-tipo de estudante, analisar os seus hábitos de vida e comportamento diário padrão, e adicionar produtos ao portfolio que satisfaçam as suas necessidades. Existe um número elevado de cidadãos de língua portuguesa, entre os 30-45 anos de idade, que procura adquirir formação superior que permita enquadrar cientificamente a sua experiência profissional já madura. São maridos e mulheres, com ou sem filhos, que sentem a sua carreira bloqueada porque não tiveram a disponibilidade financeira ou psicológica de, aos 18 anos de idade, prosseguir estudos no ensino superior. Esta premissa é suportada por dados da OCDE de 2020 que referem existir um desfasamento elevado entre o número de adultos com formação superior em Portugal e no resto da Europa. Este relatório coloca Portugal em 23.º lugar de 29 países analisados, com cerca de 28,2% de adultos com formação superior (per capita) enquanto a média europeia é de 36,7%. Irlanda lidera o ranking com 49,9% de adultos com formação superior (per capita).

É preciso dar corpo estratégico ao tão afamado conceito teórico de aprendizagem ao longo da vida. As carreiras profissionais fazem-se hoje de mudança de carreira, sendo que o reskill (atualização de competências adquiridas) e o upskill (obtenção de novas competências) elementos fundamentais oferecidos pelo ensino online. A metodologia de ensino a distância suporta na tecnologia o seu pilar essencial de ensino: a flexibilidade. É o conceito de assíncrona pedagógica do ensino online que permite que estudantes e professores interajam em espaços e tempos distintos, não havendo necessidade de "vir ao campus àquela hora". O ensino online é absolutamente capaz de oferecer a mesma exigência científica através, porém, de uma metodologia pedagógica diferente. Torna-se possível, desta forma, que o perfil-tipo 30-45 possa frequentar o ensino superior sem ter de abdicar da sua vida familiar e profissional. Inovação requer adaptação, e só os as IES mais ágeis irão superar-se.


Professor e Gestor Académico

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