O Fim do multilateralismo e o regresso dos impérios

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O ano de 2026 arrancou com um alarme na comunidade internacional! Donald Trump invade a Venezuela, detém Nicolas Maduro e assume, claramente, o motivo da “Operação Relâmpago”: recursos e petróleo.

Nicolas Maduro é um ditador que ao longo dos últimos anos tem trazido miséria, sofrimento e fome ao povo Venezuelano, mas poderemos aceitar a legitimidade militar de uma operação noutro país soberano? Assistimos a mais uma grave violação do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas, seguida de um conjunto amplo de ameaças dos EUA a outros países, nomeadamente vários na América do Sul, mas também à Gronelândia que, pela esposa de Stehen Miller, Chefe de Gabinete da Casa Branca, será “em breve”.

O desrespeito pelas soberanias e autodeterminação dos povos desta administração americana é lamentável, tal como é o uso da força das armas fora de qualquer resolução do Congresso Americano ou da ONU. Termina a Era do Multilateralismo e do uso da Lei, ressurge a Era dos Impérios e do uso da Força.

Formalmente, terminou a Era do Multilateralismo e do uso da Lei como regulador internacional. A cooperação e o diálogo foram o garante de paz e estabilidade. A visão de um mundo coordenado pela Lei e assente no diálogo e na diplomacia, que garantiram décadas de respeito pelas soberanias entre os vários países.

Ressurge uma nova Era. A Era dos Impérios e da Força. A novidade é que as grande Superpotências mundiais se parecem alinhar em força contra os mais fracos. O uso da força e da “Guerra Furtiva” voltam à Ordem Mundial séculos depois. Desrespeito pela Lei Internacional, divisão do Mundo e dos recursos mundiais: os Estados Unidos da América a proteger a visão Russa na ocupação da Ucrânia (que em parte parece justificar esta operação na Venezuela e outras que, parece óbvio, se lhe vão seguir), e abrindo caminho para que a China avance em breve sobre Taiwan e outras ilhas em disputa no Pacífico.

Aquando do Afeganistão, ao menos, Bush inventou razões democraticamente aceitáveis para justificar a operação, já Trump não se dá a esse trabalho. É pelo petróleo e não nega a possibilidade de controlo político da Venezuela. Mas estas realidades ficam longe demais para as vozes Europeias poderem condenar esta atitude criminosa.

O próximo alvo será a Gronelândia, uma Região Autónoma da Dinamarca, fundadora da NATO e desde 1973 membro da União Europeia. A Gronelândia, que já é Europa! E a Europa? A Europa reage a múltiplas vozes, no geral com um aplauso “cobarde” a uma situação que em breve acabará com o sentido de existência das Nações Unidas e a seguir da própria NATO. Não temos força verdadeira. E só em 2030 teremos os meios militares “suficientes” para podermos ter peso estratégico neste contexto disruptivo internacionalmente. A postura “cobarde” que teve também o Governo Português. Incapaz de reconhecer a violação do direito internacional e condenar os EUA, a bem de uma parceria transatlântica que ninguém hoje sabe o que vale, para e a quem serve.

Neste contexto de crescente instabilidade internacional, torna-se imperativo que a Europa reforce a sua autonomia estratégica e reafirme, de forma clara e coerente, a centralidade do Direito Internacional, do multilateralismo e da diplomacia como pilares da ordem mundial. A aceitação tácita de intervenções unilaterais e da violação das soberanias nacionais fragiliza as instituições internacionais e compromete décadas de construção de paz e cooperação. A defesa dos valores fundadores da União Europeia exige responsabilidade, capacidade de dissuasão e uma voz política firme, sob pena de assistirmos, de forma passiva, à consolidação de uma ordem internacional baseada exclusivamente na força e no poder dos mais fortes.

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