O início do século trouxe uma ‘maré cor-de-rosa’ à América Latina. Soluções de esquerda mais ou menos revolucionárias, mais ou menos democráticas, foram vencendo eleições até se tornarem hegemónicas na região.As promessas e esperanças geradas levaram muitos analistas a antecipar uma segunda maré de tonalidade idêntica. Mas deu à costa uma vaga azul. Em 2025, Bolívia, Chile e Honduras viraram à direita, juntando-se a países já situados nesse campo político, como o Panamá, o Ecuador, o Paraguai, El Salvador e a Argentina.Olhando para os actos eleitorais previstos para 2026, só no Brasil e na Colombia ganhará a esquerda – vaticínio mais seguro no primeiro país do que no segundo. Ainda assim, note-se que a direita venceu as últimas autárquicas brasileiras, em Novembro de 2024.Tudo indica que Lula da Silva tentará, em Outubro, um quarto mandato. Aos 80 anos de idade, o êxito político do presidente brasileiro, sem paralelo em democracia, espelha a falta de alternativas – e o possível desastre a prazo – da esquerda. Como escreve a The Economist, o carisma não impede o declínio cognitivo. Lula arrisca-se a ser um Joe Biden tropical.As demais eleições agendadas reforçarão a nova tendência. Na Costa Rica, as presidenciais e legislativas marcadas para 1 de fevereiro esperam uma vitória da direita. E no Perú, imerso em instabilidade política, com oito presidentes em dez anos, a ida às urnas a 2 de abril também dará um triunfo à direita.A imagem de uma maré, ou vaga, útil para efeitos de análise, não deve convidar a determinismos, muito menos a tratar como iguais realidades diferentes. Cada país tem a sua história, a sua economia, as suas singularidades políticas e sociais. Em bom rigor, devemos falar em vitória das direitas, no plural.Há, no entanto, três razões comuns para a mudança. Primeiro, a violência e o crime organizado, em manifesto descontrolo. Aqui, o legado da esquerda é um fracasso rotundo.Segundo, a economia. Na Argentina, o sucesso de Javier Milei, apesar de todas as excentricidades, explica-se, em parte, com o facto de o Peronismo continuar agarrado a políticas de “terraplanismo económico” – expressão feliz do politólogo Andrés Malamud – que condenaram o país a desgraças cíclicas. É um problema recorrente nas esquerdas das Américas.Terceiro, a aparente vontade de pragmatismo. Será uma reacção ao longo século XX na América Latina, que se fez (e faz) de utopias. À esquerda e à direita – sobretudo à esquerda – o poder foi entendido como um instrumento de reinvenção, de criação de países e povos, não como uma oportunidade para reformar e administrar o que existe.Ninguém explicou melhor esse século de utopias do que o ensaísta colombiano Carlos Granés. Em Delirio americano: Una historia cultural y política de América Latina, Granés explora as sobreposições entre arte, cultura e política para mostrar como produziram delírios governativos.Houve utopia em vez de democracia, reimaginação em vez de reforma, luta em vez de consenso, messianismo em vez de governação. Apostou-se no ódio a inimigos externos – primeiro, Espanha, depois, os Estados Unidos da América – em deterimento da resolução de problemas internos. Os procedimentos do Estado de Direito foram atropelados por programas heróicos de transformação social. Se às promessas subtrairmos os resultados, sobra desilusão.Talvez a vaga azul possa acabar com o longo século XX latinoamericano. As direitas terão de resistir ao apelo de passados autocráticos e à tentação de emular os vícios revolucionários das esquerdas.Será um desafio hercúleo. E tornou-se maior no sábado passado. O desfecho da operação norte-americana na Venezuela ditará se nos aproximamos do fim do delírio, ou se o delírio continuará por outros meios. A Estratégia de Segurança Nacional de Trump, que converte a América Latina em prioridade para Washington, será, a um só tempo, uma oportunidade e uma grilheta para as direitas latinoamericanas. Politólogo.Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico