O tiro que atingiu o tenente‑general Vladimir Alekseyev, primeiro vice‑chefe do GRU, não foi apenas um ataque. Foi um aviso. O agressor esperou por ele na escadaria de um prédio no noroeste de Moscovo, disparou, fugiu e deixou atrás de si a pergunta que nenhum general russo quer formular: quem consegue chegar tão perto do coração da inteligência militar? Alekseyev parece ter sobrevivido, mas a sensação de invulnerabilidade da capital russa não.O caso junta-se a uma série de atentados seletivos contra oficiais de topo em território controlado pelo Kremlin. Moscovo classifica-os como crimes e abre investigações, mas evita conclusões públicas sobre autoria. Em dezembro de 2024, o general Igor Kirillov, chefe das tropas de Defesa Radiológica, Química e Biológica, morre quando um engenho explosivo colocado numa scooter deflagra junto ao seu prédio em Moscovo. Em Abril de 2025: tenente-general Yaroslav Moskalik, vice‑chefe de Operações do Estado‑Maior, foi eliminado por explosão automóvel. Dezembro de 2025: o tenente-general Fanil Sarvarov, chefe do Departamento de Treino Operacional do Estado‑Maior, foi neutralizado por uma bomba magnética. Em paralelo, multiplicam-se ataques ucranianos em solo russo: drones contra refinarias, sabotagens em depósitos, incursões em regiões fronteiriças como Kursk. A guerra deixou de ser um fenómeno distante e entrou no espaço onde o poder russo se julgava protegido.A cronologia tem um ponto de viragem. Em 2022, Darya Dugina, jornalista ultranacionalista e filha de Alexander Dugin, morre quando o carro em que seguia explode na periferia de Moscovo, perto de Bolshiye Vyazyomy. O alvo, segundo as autoridades russas, seria o pai. A partir daí, a lista de mortes e atentados cresce. Vários oficiais desaparecem em circunstâncias que o Estado descreve como incidentes criminais ou acidentes, mas que analistas independentes consideram compatíveis com operações clandestinas. Na frente ucraniana, dezenas de comandantes russos são abatidos por fogo preciso guiado por inteligência em tempo real. O padrão é claro: não se trata de combate, mas de retaguarda.O impacto interno é corrosivo. Generais mudam rotinas, contratam segurança privada, evitam percursos previsíveis. O FSB, encarregado de proteger a elite militar, falha repetidamente. Substitutos assumem funções sem a experiência acumulada dos eliminados. A cadeia de comando perde memória, perde confiança, perde sono. E instala-se a dúvida que nenhum regime autoritário tolera: quem controla verdadeiramente a segurança do Estado?Alekseyev é um alvo que pesa. É adjunto de Igor Kostyukov, líder da delegação russa nas conversações discretas em Abu Dhabi com ucranianos e americanos e diretor do GRU, o serviço responsável, entre outras coisas, pelas operações clandestinas na Europa. O ataque ocorre pouco depois de uma ronda negocial. Em Kiev circula uma história sobre Kyrylo Budanov, antigo chefe da inteligência militar ucraniana e figura central destas operações: quando um russo levanta a voz na mesa, Budanov pede o nome, repete, anota. Não há confirmação oficial, mas a verosimilhança basta para alimentar o mito. E o mito, na guerra psicológica, vale tanto como o facto.A hipótese de uma purga interna russa é fraca. O método tradicional do sistema é outro: envenenamentos discretos, doenças súbitas, quedas convenientes. Atentados públicos com explosivos ou armas de fogo apontam para mão externa. Kiev nunca reivindica estes ataques, mas a combinação de visibilidade controlada, negação plausível e impacto multiplicador encaixa na lógica operacional que lhe é atribuída.Estas operações não mudam mapas, mas mudam comportamentos. Erosão da elite militar, desconfiança nas negociações, sensação de penetração profunda num aparelho que se julgava impermeável. Abu Dhabi pode produzir tréguas tácticas, mas enquanto nomes forem anotados e ataques chegarem a Moscovo, o Estado‑Maior russo vive com uma certeza nova e inquietante: a noção de que a retaguarda colapsou. Analista de Estratégia, Segurança e Defesa