O espelho partido da diplomacia

Começa amanhã a 26.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas. O secretário-geral, António Guterres, não tem cessado de alertar para o provável insucesso de mais esta reunião. As fugas de informação vão revelando alianças na sombra entre países e setores económicos, do Brasil à Austrália, passando por Arábia Saudita. Argentina e Japão, entre outros. Numa total indiferença para com o esmagador avanço do conhecimento científico - e a prova do seu rigor, que a realidade objetiva não cessa de confirmar -, muitos Estados e setores económicos instalados, do carvão e do petróleo à carne e à agricultura intensiva, passando pelo nuclear e a geoengenharia, estão firmemente organizados para deixar que a trajetória de colisão entre este modelo de globalismo predatório com os limites ambientais do nosso planeta continue a acelerar.

No passado, os pensadores ocidentais sustentaram que o impulso para a autopreservação era a base do acordo político. Contudo, o próprio Thomas Hobbes recordou-nos que a vontade de domínio pode ainda ser mais poderosa, rasgando todos os limites para se perpetuar. Aqueles que se espantam por as leis da física, evidenciando o profundo e vertiginoso desequilíbrio do Sistema-Terra causado pela ação antrópica, serem ignoradas com desprezo pelos poderosos do mundo, esquecem o alerta de Hobbes, no Leviatã (1651): se Euclides constituísse uma ameaça aos detentores do poder, estes fariam tudo para queimar os livros de geometria...O que o fracasso de mais uma cimeira climática irá revelar é o colapso das políticas públicas à escala mundial. A globalização neoliberal do início dos anos 1980, iniciada ao mesmo tempo com Deng Xiaoping, Thatcher e Reagan, entregou este precioso e ímpar planeta à voragem predatória de uma economia extrativa e primitiva, quando comparada com a complexidade do software que a natureza desenvolveu ao longo de milhões de anos. Os governos transformaram-se em meros facilitadores. Nestes últimos 40 anos, o novo e turbinado mercado global causou mais danos na ecologia da Terra do que os milhares de anos anteriores da história humana. Os sucessivos protelamentos das decisões necessárias conduziram ao atual caos instalado. Todos os Estados e interesses querem combater as alterações climáticas, desde que sejam os outros a fazer sacrifícios, e eles, pelo contrário, possam obter bons negócios e conquistar novos mercados.

A anarquia madura do sistema internacional, sobre a qual Adriano Moreira há tantos anos lucidamente escreve, transformou-se num pandemónio declarado. O Acordo de Paris foi sempre uma criatura imperfeita: sem a natureza de um tratado (apenas para permitir a entrada dos EUA de Obama, incapaz de vencer a oposição no Senado); sem metas nem obrigações vinculativas; sem sanções para os prevaricadores. Se o fracasso anunciado de Glasgow se concretizar importará reconhecer que o Acordo de Paris, na sua atual forma, está esgotado. Fingir que uma monstruosa caricatura de acordo é melhor do que acordo nenhum, é um erro político que só ajuda aqueles que pretendem simular preocupação, mas se recusam a agir. Se queremos defender o chão dos nossos filhos teremos de ousar outro caminho. A diplomacia também conhece os meios de tornar obrigatória a cooperação entre potenciais inimigos. Mas para isso importa partir o espelho dos falsos consensos, encontrar os aliados confiáveis e reconstruir as regras do jogo.

Professor universitário

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