O primeiro ministro Luís Montenegro saiu derrotado da primeira volta das presidenciais. O candidato que escolheu apoiar, Luís Marques Mendes, falhou na mobilização do eleitorado laranja e, pela primeira vez em três décadas, o PSD não apresenta um nome com hipóteses reais de chegar a Belém. E isto acontece sob a liderança de Montenegro.Há quem diga que o erro começou logo na escolha de Marques Mendes, quando já era evidente que o partido não se uniria em torno dele. Talvez. Mas essa leitura pode ser apressada. O mesmo se poderia ter dito de António José Seguro, que acabou por vencer a primeira volta. E, durante semanas, Marques Mendes teve condições para disputar a eleição, sobretudo quando Gouveia e Melo começou a afundar nas sondagens.O problema surgiu quando a campanha perdeu tração e foi atingida pelos torpedos do almirante, que trouxe para o debate os alegados conflitos de interesse de Marques Mendes enquanto advogado de negócios, atividade em que em Portugal se confunde frequentemente com lobby nos corredores do poder. Era previsível que o tema surgisse, mas Gouveia e Melo levou a ofensiva a um nível que poucos anteciparam - e acabou por destruir a própria candidatura, ao passar uma imagem de falta de elevação numa eleição onde isso conta. No fim, os dois favoritos anularam-se mutuamente. E quem beneficiou foi Seguro, com Cotrim logo atrás.Regressemos a Montenegro. Independentemente da discussão sobre o apoio inicial a Marques Mendes, o verdadeiro erro ocorreu na noite eleitoral, quando o primeiro-ministro anunciou que não apoiaria um candidato na segunda volta..Em primeiro lugar, a verdadeira clivagem política do nosso tempo não é entre esquerda e direita, mas entre quem defende a sociedade aberta e os seus atuais inimigos, que a querem substituir por modelos de rutura.Assim, não existe apenas uma direita, mas várias, que em alguns aspetos têm mais diferenças entre si do que em relação às esquerdas. De resto, André Ventura propõe uma Quarta República e, tal como outros líderes populistas europeus, tem algumas ideias que colidem com a sociedade aberta de que falava Popper. Por exemplo, no que toca à Constituição, à integração europeia, à globalização, à economia social de mercado e aos direitos das minorias, o PSD está muito mais próximo de Seguro do que de Ventura, cuja candidatura representa uma rutura com os valores do “centrão”. Neste contexto, após a derrota de domingo, Montenegro ficou num dilema: apoiar o candidato do centro-esquerda, com quem partilha valores e princípios, mas correr o risco de entregar a Ventura a oportunidade de se apresentar como o campeão do espaço não-socialista; ou abster-se e correr o risco de dar a entender ao eleitorado da AD que entre Seguro e Ventura não existem diferenças significativas. O primeiro-ministro foi pela segunda opção, embora ao mesmo tempo várias figuras que lhe são próximas - como o autarca do Porto, Pedro Duarte -, já tenham vindo a público manifestar o apoio a Seguro.Percebe-se o que Montenegro e o PSD estão a tentar fazer, que é apoiar Seguro sem o afirmarem de forma clara. Mas ao agir desta forma, sem assumir claramente o que o une e separa dos dois candidatos, Montenegro passa a ideia de que é um líder que transige em questões de princípios fundamentais. Ao colocar Seguro e Ventura no mesmo plano, Montenegro transmite ao seu eleitorado que tanto faz votar num como no outro. Porém, Seguro não quer liderar a direita, nem tão pouco “devorar” o PSD e instaurar um regime presidencialista. Ventura, pelo contrário, aspira à liderança das diferentes direitas e, se for eleito Presidente, tentará governar a partir de Belém. Montenegro está a abrir espaço para que o líder do Chega aproveite as presidenciais para fazer uma incursão no eleitorado da AD e até possa ambicionar, de facto, vencer as eleições. É uma escolha que poderá ter consequências profundas para o atual Governo e para o PSD, porque os votos que perderem para Ventura provavelmente não retornarão. Diretor do Diário de Notícias