O embate sobre a Gronelândia: soberania e a fenda na estabilidade nuclear

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A tentativa da Administração Trump, em janeiro de 2026, de adquirir ou ocupar a Gronelândia reabre uma das fraturas mais perigosas da política internacional contemporânea: o choque entre soberania, recursos estratégicos e equilíbrio nuclear. O interesse norte-americano na ilha não é apenas económico. O controlo da Cordilheira de Lomonosov, eixo submarino que atravessa o Ártico e em que se fundamentam as reivindicações territoriais, confere uma vantagem geoestratégica singular, mas colide diretamente com as pretensões da Rússia e, em segundo plano, com as do Canadá. Em causa está, não apenas, o acesso a recursos minerais críticos, mas a arquitetura militar do próprio Polo Norte.

Ao acusar Copenhaga de menor capacidade e falta de empenho na vigilância da região, Washington insinua a substituição da soberania dinamarquesa por uma tutela funcional americana. Todavia, por trás desta racionalidade geopolítica, reside a mentalidade de Donald Trump como empresário imobiliário e o seu fascínio pelo espírito expansionista de William McKinley e pela histórica compra do Alasca. Para Trump, a Gronelândia não é apenas um território, mas o “negócio do século”, uma oportunidade para inscrever o seu nome na galeria dos presidentes que expandiram as fronteiras da nação.

Esta visão de “promotor imobiliário global” trata nações como ativos transacionáveis, ignorando que, sem a Gronelândia, a Dinamarca perde a sua projeção continental e a capacidade de reivindicar a extensão da plataforma continental prevista no artigo 76.º da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

Mais revelador foi, no entanto, o lapso comunicacional de Trump, que expôs a motivação militar subjacente: a importância da ilha como espaço estratégico fundamental na rota de disparo dos mísseis russos e elemento central do projeto Golden Dome. Este sistema antimíssil em camadas visa uma proteção avançada que desafia diretamente a Doutrina MAD (Mutual Assured Destruction), minando a simetria que sustentou a estabilidade nuclear desde a Guerra Fria.

Moscovo reagiu de imediato e com uma assertividade que conferiu ao lapso de Trump uma gravidade sem precedentes. Sergei Ryabkov, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, descreveu os planos americanos como profundamente desestabilizadores, ecoando o trauma tecnológico da Iniciativa de Defesa Estratégica, a Guerra das Estrelas de Reagan. Para o Kremlin, o Golden Dome não é um escudo defensivo, mas a cobertura potencial para um primeiro ataque impune.

A resposta europeia a esta crise foi surpreendentemente coesa: oito países da NATO alinharam com a Dinamarca, denunciando a tentativa de apropriação unilateral do território. O gesto irritou Trump, que respondeu com uma birra diplomática, expressão aqui usada na sua aceção mais política: uma reação intempestiva motivada por humilhação estratégica.

As suas agressões verbais contra líderes europeus e a imposição de tarifas punitivas, sob pretexto de segurança nacional, visaram quebrar a unidade do bloco, convertendo o Ártico num palco de guerra informacional destinado a desviar a atenção da intervenção americana na Venezuela.

O que este episódio revela não é apenas um novo capítulo da militarização polar, mas a erosão da própria arquitetura de segurança global. Quando a segurança de um Estado é construída sobre a insegurança absoluta do outro, a dissuasão perde a sua função ética e política.

Ao ignorar a soberania de um aliado em nome da conveniência e de uma ambição de glória pessoal decalcada no século XIX, Washington arrisca-se a implodir a ordem internacional que fundou.

O Ártico transforma-se, assim, no espelho de um século XXI em que a força tecnológica e a manipulação informativa substituem o Direito Internacional, e no qual a Europa, finalmente, mostrou os dentes ao perceber que a birra de um aliado já não é apenas um incómodo diplomático, mas uma ameaça estratégica.

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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