O colapso de um país que não se conhece

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A tempestade Kristin não foi apenas um episódio de mau tempo, foi um aviso claro em que, durante dias, parte de Portugal viveu sem água, sem comunicações, sem coordenação visível e no escuro. Não houve informação clara sobre o que estava a acontecer ou o que poderia acontecer a seguir. A resposta resumiu-se a um SMS com a indicação de ventos até 140km/h, como se um número técnico fosse suficiente para orientar decisões concretas.

Mas 140km/h não é um detalhe estatístico. Significa telhados arrancados, árvores a cair sobre casas e carros, pavilhões a colapsar, linhas elétricas no chão e falhas prolongadas de energia, água e comunicações. Um alerta eficaz não se limita a informar. Explica consequências, orienta comportamentos e ajuda as pessoas a protegerem-se. É assim que se constrói a confiança e se evita o caos.

Num evento com milhares de ocorrências e centenas de milhares de pessoas afetadas, ficou evidente um problema estrutural. O Estado não conhece suficientemente bem o território que governa. O IPMA avisou com antecedência, mas faltou a capacidade de transformar esse aviso em ação concreta. Saber onde o impacto seria mais grave, que infraestruturas estariam mais vulneráveis, que populações correriam maior risco e onde posicionar meios antes da chegada da tempestade, faria toda a diferença, mas não existiu.

Esse conhecimento não surge por improviso. Exige instrumentos básicos que continuam em falta. Portugal não dispõe de um cadastro multifuncional atualizado que reúna, de forma integrada, informação sobre edifícios, redes de energia e comunicações, uso do solo, acessos, áreas florestais e zonas habitadas. Sem esse retrato do território, governa-se às cegas e reage-se sempre depois do problema instalado.

A ausência de mapas de risco climático detalhados agrava ainda mais esta fragilidade. Sem eles, não se antecipa onde o vento derruba postes, onde a chuva corta estradas ou onde a queda de uma árvore isola uma freguesia inteira. Sem antecipação, a resposta chega sempre tarde e custa mais, em dinheiro, em desgaste e em sofrimento.

Não se pede que se evitem tempestades. Pede-se que o Estado conheça os locais onde é vulnerável antes de falhar, pois o planeamento e a prevenção salvam recursos, reduzem danos e protegem vidas. São escolhas políticas e não apenas fatalidades naturais.

No terreno, autarquias, bombeiros e Protecção Civil improvisaram, instalaram geradores à pressa e tomaram decisões difíceis com meios escassos. Fizeram o possível, no entanto, o problema esteve mais acima, na ausência de direção política clara, de coordenação nacional eficaz e de instrumentos estruturais que permitam antecipar em vez de remediar.

A atuação pública de alguns ministros agravou ainda mais a sensação de descolamento do Governo face à realidade. Em vez de liderança clara, houve visitas encenadas, declarações vagas e enquadramentos pensados para a fotografia e não para explicar decisões, meios no terreno ou prazos de resposta. Numa emergência com populações isoladas e serviços básicos interrompidos, as coreografias populistas revelaram-se indecorosas, ofensivas e irresponsáveis.

Sem um cadastro multifuncional e sem mapas de risco multissetoriais, incluindo os riscos climáticos, o país continuará a tratar crises como acidentes isolados. Responderá apenas depois do impacto, com improviso, comunicados vagos e visitas tardias ao terreno. Continuará a confundir alerta com estatística e governação com gestão de danos.

A Kristin mostrou a força do vento, mas sobretudo revelou a fragilidade de um Estado que não conhece o seu território e não aprende com o que já aconteceu. Num tempo de extremos climáticos cada vez mais frequentes, este aviso não deve ser ignorado, pois o custo da próxima tempestade pode ser ainda maior.

Especialista em governação eletrónica

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