O clarim

Depois do fim da guerra mundial de 1939-1945, cuja paz foi anunciada, segundo a imprensa francesa, com alegria e muitas lágrimas, e o fim das dependências do império mundial, esperava-se que finalmente o "credo dos valores" permitisse regressar à paz de todos os continentes, com relevo para o mantido amor à África. Recentemente, duas académicas de lúcida intervenção, foi da África, e sobretudo dos africanos, que se ocuparam com, entre outros valores, o papel das mulheres.

Fátima Moura Roque, num livro intitulado As Africanas, sublinha: "Na história destas africanas encontrei: desde o quimbo que é varrido com todo o cuidado para não acordar o silêncio até aos arranha-céus da África do norte e dos nossos corações à luz dos sonhos ali sonhados todos os dias ao deitar, desde as flores mais exóticas à chuva que abrandava mas não passava mesmo, a paz do futuro e o regresso ao amor do passado pareciam ter voltado com a convicção de que 'esta é a outra África'... a que existe nos nossos corações. Esta é a África que amo."

Por seu lado, a professora Maria da Glória Garcia, um exemplo da resposta aos desafios do tempo em que nos acontece viver, continua exemplar ao recordar a "vida de vidas vividas em África, sempre África, seja onde a(as) africanas esteja(m), África como pulsão, África como identidade que, por intermédio da(s) africanas, contamina quem toca. Aquela África serena e próxima, grávida de dignidade, e logo, liberdade e igualdade, que busca coerência no amanhã que prometeu ontem". Enquanto a europeia "alegria cheia de lágrimas" animou o fim da guerra entre potências ocidentais, dispostas a aceitar as utopias da ONU, e assim retirar os poderes coloniais, aqui com outras guerras, incluindo com importância a Inglaterra, a França, a Bélgica, Portugal e uma teoria sobre o tempo tríbulo, definida, por inspiração da professora Maria da Glória, no que foram os Diálogos nos Jerónimos.

O mais importantemente lembrado, nesta versão proposta do tempo, relacionado com as gerações, tem um primeiro discurso que define a vida que não vivemos, e representa o passado histórico que não recebemos a benefício de inventário; a segunda dimensão, cobre a vida que vivemos procurando alcançar uma definição de saberes em busca da sabedoria, que estará na vida da geração que recebe o legado e que não viveremos. Neste nosso país marítimo está agora assumida a intervenção igual das mulheres, não apenas as africanas. Tudo faz recordar a ligação entre as mulheres e as navegações que recentemente voltou Roger Crowley, do The New York Times, a recordar no seu How Portugal Seized the Indian Ocean and Forged the First Global Empire (2015).

A nossa visão dessa grande inspiração na europeização do globo não deixou de inscrever na memória dos sacrifícios, as jovens que ficaram por casar, mas talvez tenhamos esquecido as viúvas de homens vivos, que partiam e não voltavam, assumindo elas a gestão das hortas, dos filhos sem outro amparo, animando as aldeias e os templos onde eram abençoadas as grandes aventuras. João Morgado escreveu um excelente livro, que intitulou Vera Cruz, fazendo a descrição dessa época, que também teve rivalidades, traições e intrigas. Infelizmente a criação do legado para a próxima geração cuja vida não viveremos, estava a criar uma nova sabedoria, que, sem guerras, deixaria crescer uma África em paz e beleza, mas que é subitamente atacada selvaticamente, com experiência fortalecida em França, que tem a maior comunidade muçulmana, e agora martiriza África e sobretudo Moçambique, matando a esperança com "dor e o dia do meio", uma bela expressão de Gonçalo Tavares, aniquilando a esperança das mulheres no legado à vida da geração dos filhos que elas não viverão, somando a memória do ataque da covid-19. A solidariedade dos países de língua portuguesa não tem oportunidade de ter força e capacidade de extinguir o conceito do presidente Bush quando viu o desastre das Torres Gémeas em Nova Iorque - "é tarde para os homens e cedo para Deus", mas o aristocrático Conselho de Segurança não deve continuar alheio, incluindo as palavras do secretário-geral. Não se trata de veto, que perdeu o tempo, trata-se de intervenção, a favor das etnias, da cultura, da terra em que as vítimas cresceram e limitadamente vivem, e de paralisar e punir os interesses que comandam a criminalidade. Estão em causa a justiça natural, a Carta da ONU e o Conselho de Segurança.

A voz das vítimas e dos que as acompanham devem ser um clarim que chame o Conselho de Segurança à responsabilidade. Porque não pode ignorar, pela voz conhecida do secretário-geral, que as relações do poder são menos claras, os valores universais estão a ser corroídos, e os princípios democráticos estão sitiados. Mas é necessário que o poder da voz consiga a intervenção respeitada da voz do poder.

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