Nós seremos a muralha de aço

Durante muito tempo, Portugal vangloriou-se de ser imune à extrema-direita que surgia em toda a Europa. Quando a onda chegou, no entanto, o partido centro-direita português agiu como quem não aprendeu nada - e entregou à esquerda o papel de muralha. O resultado viu-se este domingo.

Quando as sondagens começaram a mostrar o PS e o PSD muito próximos, aventando a possibilidade de uma maioria de direita, falei com vários amigos, tão espantados como eu, desse extraordinário mistério que era o desaparecimento súbito da confortável maioria de esquerda a cuja constância nos habituáramos nos últimos anos. Como raio, comentávamos, de repente toda aquela gente que votava à esquerda resolvera votar na direita, e ainda mais quando essa direita inclui um partido racista, securitário e anti-constitucional que namora o fascismo e outro que proclama o darwinismo social? Que fenómeno assolara, de um dia para o outro, o país, e do qual ninguém vira a chegada? Estaria tudo doido?

Não quero juntar-me ao sempiterno coro dos que atribuem todos os males às sondagens, mas que algo de muito estranho se passou é indesmentível: se se pode atribuir a maioria absoluta do PS em grande parte ao efeito das ditas, não foi decerto por transferir votos da direita para o partido de António Costa - e também não se pode dizer que o PSD perdeu as eleições porque os votos "fugiram" para a Iniciativa Liberal e Chega quando os eleitores acharam que a vitória dos sociais-democratas estava no papo. Não, nada disso: o que parece óbvio é que os 344 861 votos que a CDU e o BE perderam face a 2019 passaram em grande parte para o PS, que teve mais 379 972 que há dois anos e meio - e os próprios partidos que os perderam têm, como irritadamente frisaram, essa leitura.

Há pois que pedir explicações às empresas de sondagens, sem dúvida.

Mas decerto não para dar gás à teoria mirabolante, que parece animar algumas leituras eleitorais (incluindo dos partidos "lesados"), de que houve um plano maquiavélico para fazer crer aos votantes da esquerda do PS que havia o risco de o PSD ganhar e fazer maioria com a direita radical da IL e a extrema-direita racista. É que esse risco - o de que o PSD, ganhando, se entenderia com esses dois partidos - foi posto em cima da mesa não pelas sondagens mas pela direção de Rui Rio. Relembre-se que a dois dias das eleições o vice-presidente do PSD David Justino disse na CNN: "É o povo português que põe e tira o Chega na equação; o Chega agora tem um deputado, depois logo se vê. Nós não temos linha vermelhas."

Mais claro não podia ser: o PSD "logo veria" se o Chega lhe dava jeito; o PSD não tem, ao contrário da CDU de Angela Merkel e dos republicanos franceses (com quem pelos vistos se recusou a aprender), "linhas vermelhas" nem cordões sanitários face à extrema-direita racista e anti-constitucional, que desfralda motes salazaristas e defende castigos corporais e trabalhos forçados para os condenados (e até para os desempregados, que quer obrigar a trabalho comunitário). Bastaria esta certeza para, num cenário de eleições suscitadas devido ao chumbo do orçamento de Estado pela esquerda do PS - com o que isso à partida implica de zanga de uma parte do seu eleitorado -, deslocar uma boa porção do voto esquerdista para os socialistas.

Impossível que BE e PCP não tivessem previsto essa hipótese, mas pelos vistos fizeram mal as contas à determinação de parte do seu eleitorado na luta contra a extrema-direita - nunca sonharam que levasse tantos dos seus votantes a escolher a forma mais eficaz de certificar que esta não riscará nada nos próximos quatro anos. E extraordinário que Rui Rio, empenhado em fazer uma campanha de tio fixolas e sorridente, não tenha percebido que a sua descontraída abertura à extrema-direita colidia em absoluto com a ideia, tão ao arrepio da sua imagem de autarca no Porto, que quis dar de si.

Na Europa, a experiência tem demonstrado que é antes de mais aos partidos de centro direita que cabe o papel de muro contra a extrema-direita - e que, quando necessário, como tem sucedido em França, a esquerda vota no centro-direita para derrotar a extrema. Não foi nada de inusitado, pois, o que sucedeu este domingo, até porque para os votantes de esquerda custará muito menos, sendo o objetivo erguer uma barragem contra a direita racista, votar num partido como o PS, ainda por cima depois de uma geringonça, que num congénere do PSD.

A extrema-direita racista subiu a sua votação, é certo - mesmo se, face ao resultado nas presidenciais, perdeu mais de cem mil votos - e isso, como o crescimento da Iniciativa Liberal e da sua retórica anti-Estado Social e do seu desalmado individualismo, são más noticias. Mas a esquerda não só continua a ser maioritária - ganhando até na eleição de Rui Tavares a presença, agora sim, de um novo e esperançoso partido de esquerda no parlamento - como mostrou que é capaz de sacrificar a sua "pureza" para se levantar, como muralha, contra o mal. O PSD não tem, a Il não tem; mas o país tem linhas vermelhas. Não passaram; não passarão.

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