Não voltamos atrás

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Renée Nicole Good e Alex Pretti. Dois cidadãos americanos que se manifestavam pacificamente e que foram mortos pelo ICE, a polícia anti-imigração que é, na verdade, uma polícia política, cujo propósito é reprimir violentamente os protestos contra a Administração Trump. Cidadãos que foram abatidos por quem os devia proteger e apelidados de “terroristas domésticos”. As provas dos seus homicídios foram apagadas e uma narrativa falsa foi inventada pelas autoridades.

O ICE é hoje a guarda pretoriana de um ditador, “King Trump’s private army”, como diz Bruce Springsteen na canção de protesto que lançou esta semana, Streets of Minneapolis, e que dedicou ao povo de Minneapolis, aos imigrantes inocentes e à memória de Alex Pretti e de Renée Good.

Nos Estados Unidos da América as universidades são ameaçadas com perda de financiamento se lecionarem matérias que não agradam a Trump; os tribunais são condicionados; o presidente da Reserva Federal é objeto de um processo criminal como forma de intimidação; casas particulares podem ser invadidas sem mandado judicial; os jornalistas são atemorizados por fazerem o seu trabalho; há programas de televisão suspensos (como aconteceu ao de Jimmy Kimmel); dados pessoais são violados; cidadãos - incluindo crianças - são presos e deportados sem nenhum tipo de “due process”.

É verdade que Trump foi eleito, mas a História do mundo está cheia de ditadores que foram eleitos democraticamente. Esta semana, dia 27 de janeiro, celebrou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, o que nos deve lembrar que o mais perverso ditador do século XX, Adolf Hitler, foi o mais votado nas eleições alemãs em 1932.

Por outro lado, a Democracia não se esgota no voto. Exige respeito pelos direitos fundamentais, separação de poderes, cumprimento do Estado de Direito e dos procedimentos legais, pluralismo e respeito pelas minorias. De acordo com estes critérios, os EUA caminham a passos largos para um regime autoritário e repressivo. No plano internacional, acabou a ordem assente no Direito, tal como a conhecíamos desde o fim da II Guerra Mundial.

Perante isto, precisamos de líderes políticos que sejam firmes com os inimigos da Democracia, intransigentes com os totalitarismos, corajosos perante a intimidação e fortes face à repressão. Os discursos de Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, em Davos, e de Tim Waltz, governador do sacrificado Estado do Minnesota, demostram que ainda há líderes no mundo. Mas, na verdade, é no povo norte-americano que deposito mais esperança. Que se revolte, que se manifeste, que nas eleições intercalares deste ano (se Trump não impedir a sua realização) demonstre que os EUA são ainda the land of the free, como consta da letra do seu hino. Afinal, a complacência e a indiferença dos povos são as principais armas dos ditadores.

Em Portugal durante o Estado Novo também assim foi. O que se passa nos EUA ensina-nos que a Democracia e a liberdade nunca são dados adquiridos. Não voltemos atrás.

Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS

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