No vale das sombras: poesia e suicídio, um livro

Publicado a

É neste início de ano, não obstante a data de edição ser de Novembro passado, um dos livros a que teremos de voltar, um dos livros deste tempo. Trata-se de uma “antologia de poetas suicidas”, com tradução e selecção de Carlos Ramos e cobrindo - em jeito de alfabeto, ou quase - inúmeros poetas que se suicidaram. O prefácio é de Paulo Chagas, e, diga-se, um excelente prefácio, em cujas páginas encontramos a justificação desta antologia: se nenhum gesto de autodestruição deve ser entendido como “nobreza trágica”, e se a morte dos autores que admiramos “nos perturba porque nos confronta com a possibilidade de que a arte não seja suficiente para salvar”, a verdade é que, precisamente por serem suicídios de poetas que admiramos, esta antologia tem uma força e um fascínio inescapáveis. Podemos ver em diversos textos o conflito interior de um eu agónico para quem o mundo é abismo e mistério (Costafreda), ou podemos descortinar no poema de um suicida a certeza de um vazio ontológico que nasce da expulsão do mundo materno, da demolição do mito fundacional (Ana Cristina Cesar), que é também erótico, amoroso. No caso da poeta brasileira, poemas há que são de uma intensidade trágica que roça a desistência e a demissão: “não posso ainda acreditar na vida”, “vivo como quem despede a raiva de ter visto” (p.20). Desistência e demissão similares em Anne Sexton que se dirige a Sylvia Plath, estilhaçamento do ser que com a mesma clave do ideal de amor em ruínas se dá a ler em Anayde Beiriz, Anthony Bordain ou como processo de queda interior em Anderson Herzer - uma queda que deriva da morte do pai, o terrestre ou o celeste (“Pai, quando tu morreres / eu não vou chorar / para compensar todo o pranto / que me fizeste derramar” (p.35). Desistência, demissão abandono, fuga do mundo, em Alejandra Pizarnik, a morte resolve a perda da fé, de mistura com a interrogação de um além-vida: “Como é que não me suicido diante dum espelho / e desapareço para reaparecer no mar” (p.41).

Poemas outros há em que, na cisão interior de que nasce a voz lírica, adivinhamos um longo processo de dor. Dor do pensamento, guerra interna entre Eros e Thanatos, princípio vital e princípio mortal, os dois cavalos que lidamos ao longo da existência, são em Antero, nos dois sonetos seleccionados, “Com os mortos” e “Contemplação” (e “Nox”? e “Palácio da Ventura”?), animais que vemos quase como símbolos do que o poeta-filósofo faria: a construir a pré-morte de um eu que, como actor-autor de si, se podia mostrar já em processo de destruição. Carência, privação do amor, aguda percepção do absurdo da vida humana, a figuração do actor-autor que lemos no poeta dos Sonetos (1880) confina, portanto, com a irrupção de um niilismo universal. Se Antero tenta resistir, pela força de linguagem e de racionalização que o soneto exige, à depressão que o leva a disparar sobre si dois tiros, virado para o Convento da Esperança, a 11 de Setembro de 1891, já em Arthur Koestler, por meio de uma “carta de suicídio” estamos noutra dimensão do niilismo. Que dimensão? Não a de matriz filosófica, como em Nietzsche e no poeta português, mas a dimensão bem concreta da crise. O suicídio como confirmação da natureza inquebrantável do amor: os suicidas também amam e, neste caso, com a vontade expressa do autor em morrer devido à Doença de Parkinson, agravada pela leucemia (ou vice-versa). Um suicídio que acarreta o suicídio da mulher de Koestler, Cynthia, que não podia - assume-o - viver sem o marido.

Esta antologia tem, de resto, na selecção feita por Carlos Ramos, um motivo mais de interesse: as fotografias dos suicidas. A morte necessita de rosto, ou de rostos. Nesta edição há rostos de deslumbramento, olhares que são indícios de um ominoso. Nem todos os poetas têm fotografia. Ficamos pela intensidade e a irradiação da dor, do sono / sonho (a sensível linguagem de Alfonsina Storni), pela íntegra escolha de quem preferiu guardar na poesia a centelha da vida e, depois de escrita, entregar à morte o apagamento desse fogo (António Cicero: “eu viveria tantas mortes / morreria tantas vidas / jamais me queixaria").

Que a poesia diz a vida e diz a morte; que, no fundo, como quer Maurice Blanchot, toda a literatura, e especialmente a poesia, nasce nesse perímetro de silêncio (aquele “lago escuro silente de juncais» para onde vão as imagens arrastando o poeta, disse-o Pessanha?) que é o seu supremo horizonte a sua morada radical, disso não há dúvidas. Um poeta é uma mulher ou um homem normais. Há, porém, um buraco negro, uma lucidez implacável (que se leia Alexis Traianós ou Cesare Pavese, Camilo Castelo Branco) que, de mãos dadas com o “grande Nada», legitimam o poema rude, as palavras cheias de dor, porque plenas de vitalismo, intensas de vida, porque infectadas com o vírus da morte. Um dos mais lancinantes poemas que Carlos Ramos traduz, de Edward Stachura intitula-se “Estou a morrer”, mas finda com a recusa da morte, com a declaração de que o poeta não provará a morte. Florbela Espanca, Hart Crane, Von Kleist, Gabriel Ferrater, Horacio Quiroga, Li Bai, Kurt Cobain, Goytisolo, Jacques Rigaut, Mário de Sá-Carneiro, todos eles, na verdade, são mais do que homens e mulheres que se suicidaram. São, como sentenciosamente escreveu Scott Hitchison, os que nadaram até não verem mais terra.

Tiro de pistola, enforcamento, estricnina, voo para um abismo sem fim, o que esta antologia que Carlos Ramos em boa hora nos dá, não é, como diz no prefácio, um catálogo, um cardápio de nomes, de vidas que quiseram acabar. O que esta antologia mostra é a realidade radical de duas coisas: que a vida tem a morte a pôr-se de permeio, com isso dando densidade e sentido a quem resiste e, no fundo, que se a poesia não salva, não é exactamente à poesia que teremos de pedir justificação para que, desde sempre, Eros e Thanatos andem de mãos dadas.

Professor, poeta e crítico literário

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.

Diário de Notícias
www.dn.pt