“Não sou novo o suficiente para saber tudo”

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A frase é de Oscar Wilde – a título de declaração de interesses, é o meu autor favorito – e foi-me ocorrendo várias vezes durante o dia de ontem, enquanto ouvia as centenas de análises e reflexões sobre a segunda volta das presidenciais que nos esperam. É certo que este é o assunto do momento no país e, durante as próximas três semanas, o tom da campanha vai elevar-se, com todas as fichas de ambos os candidatos a serem postas em cima da mesa. Tenho ouvido, com apreensão, muitas certezas, num tempo em que tudo grita incerteza.

Se há quem já cante a vitória de António José Seguro, há quem tenha a certeza de que a direita só poderá votar em André Ventura.

A cada análise cheia de certezas que oiço ou leio, crescem em mim as incertezas porque, lá está, “não sou nova o suficiente para saber tudo”. E há demasiadas coisas que não sabemos, neste momento.

A verdade é que há muitos anos que Portugal não tem uma segunda volta nas Presidenciais, e que ainda há mais anos que o país não se encontrava tão dividido, política e socialmente.

Não sei, por isso, se para os eleitores que irão às urnas no próximo dia 8 de fevereiro – ou no dia 1, para quem vota em mobilidade – é mais importante seguir a tradição de uma escolha tradicional esquerda-direita, quando não há esquerda-direita em jogo; ou se, por outro lado, estão a olhar para os desafios de médio e longo prazo de uma sociedade significativamente fragmentada.

Estas serão, possivelmente, as eleições mais importantes das últimas décadas no nosso país, e uma oportunidade para estar do lado certo da História – recupero a teoria de Strauss-Howe, da quarta vaga, para recordar que, apesar da desesperança que nos acomete, “também isto passará”, porque a história é feita de ciclos, e o ciclo de crise parece estar quase a terminar. Por isso, ao invés de certezas, aproveitemos as próximas semanas para, cheios de incertezas, pensarmos para onde queremos continuar a caminhar: para a liberdade, a legitimidade e a coesão social, ou para algo completamente diferente.

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