Não, nunca houve umas presidenciais assim

Há 40 anos, a escolha, mesmo se à época parecia tão extremada, foi entre quatro sociais-democratas cujas ideias para Portugal não seriam assim tão distintas. Hoje o campeonato é outro: nunca como agora esteve em causa o regime democrático liberal.
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Calhou que as primeiras presidenciais nas quais tive idade para votar tenham sido aquelas, há 40 anos, em que houve segunda volta. Para o país que celebrava 11 anos de democracia — afinal, as primeiras eleições livres tinham ocorrido a 25 de abril de 1975 —, como para mim, com 21 anos, tudo parecia muito mais extremado do que realmente era. Olhar agora para esses tempos, tão notavelmente recordados na série documental As duas voltas, de Ivan Nunes e Paulo Pena, que passou no início deste mês na RTP, causa uma terrível nostalgia. Não porque os tempos não fossem difíceis — eram, aliás muitíssimo, como se nota no ar paupérrimo de muitas das pessoas e zonas com as quais os candidatos se cruzavam — mas pelo entusiasmo que ainda se vivia com o processo democrático, notório nas marés de gente que acolhiam as ações de campanha, e pela agora tão evidente semelhança entre as mundividências dos concorrentes, todos democratas liberais.

Reparemos: pelo PS era candidato Mário Soares; o partido eanista (PRD, ou Partido Renovador Democrático, formado sob a égide do então presidente Ramalho Eanes) escolheu como candidato outro histórico do PS, Salgado Zenha, que acabaria por ser apoiado pelo PCP; por fora, deixada cair por Eanes, de quem esperava um apoio que nunca chegou, corria a ex-primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo, católica conotada com as causas sociais; como candidato do PSD cavaquista e do CDS, do qual tinha sido presidente, tínhamos Diogo Freitas do Amaral (que 20 anos depois viria a ser ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo de maioria absoluta do PS).

Soares, sabemos, partiu de sondagens que lhe davam um dígito, passou à segunda volta e acabou por vencê-la à justa, com o apoio também do PCP, cujo líder, Álvaro Cunhal, disse que escolher entre Soares e Freitas era escolher “entre a direita e a reação” —  pedindo assim aos apoiantes do seu partido para votarem na direita

Dá vontade de rir a caracterização de Soares e do PS como “direita”? Bom, o PCP sempre o fez, colocando aliás sistematicamente o PS fora daquilo a que, em tantos documentos, projetos de lei e de resoluções parlamentares, apelida de “forças democráticas e progressistas”. Mas em 1986 Cunhal e a direção do PCP foram capazes de, por duas vezes, decidir apoiar alguém que, não sendo o seu candidato ideal à presidência, era o que lhes parecia a solução menos má face ao que viam como o perigo da vitória da “reação”: primeiro Zenha e depois Soares.  

A palavra “reação”, tão usada nesses tempos longínquos, perdeu ressonância. Já ninguém a usa, creio que nem o PCP, mesmo se é agora que, pela primeira vez em tantas décadas, vemos os verdadeiros valores da “reação” — o enaltecer do Estado Novo e do salazarismo, até no uso de chavões conotados com os primórdios do fascismo italiano, como Deus, Pátria e Família — a serem agitados com deliberação provocatória pelo líder da extrema-direita e seus sequazes. 

É um pouco como na fábula de Esopo, O Rapaz/Pastor e o Lobo: de tanto se gritar lobo, quando o lobo vem mesmo está tudo desinteressado — ou porque já ninguém acredita em lobos, ou porque até há quem ache que os lobos são fixes, porque afinal não são mesmo lobos, ou são lobos diferentes

Claro que quando os lobos se revelam mesmo muito lobos é tarde de mais — é exatamente a isso que estamos a assistir nos Estados Unidos, no segundo mandato de Trump. Também em relação a Trump e Kamala (como antes em relação a Trump e Hillary) vimos o mesmo tipo de atitude por parte de muita gente em Portugal, à direita e à esquerda: que tanto fazia, que não havia diferença,  que Kamala era “uma incógnita” porque não se sabia o que defendia e que Trump, sim, coiso e tal mas “nunca poderia fazer muito mal porque o sistema democrático americano é muito resiliente”. 

Está-se a ver que sim, que não poderia fazer muito mal, e que o sistema democrático norte-americano é resistentíssimo. É só ver a sucessão de enormidades que nos últimos dias a administração norte-americana protagonizou, desde o rapto de Maduro na Venezuela e o anúncio de que doravante os EUA tomam conta das respetivas riquezas naturais ao homicídio, de imediato aprovado por presidente e vice-presidente, de uma mulher de 37 anos aparentemente pelo crime de avançar com o seu carro quando os mascarados armados, verdadeiras tropas de assalto à maneira das Sturmabteilung (as SA, ou camisas castanhas nazis), que aterrorizam as ruas do país em busca de imigrantes ilegais queriam que ela os deixasse agarrá-la, passando pelo processo criminal contra o presidente da Reserva Federal (o equivalente do Banco de Portugal) e pelas ameaças à Gronelândia, à Colômbia e a Cuba, culminando na afirmação de Trump ao New York Times de que não quer saber de leis nenhumas, a única coisa que o guia é a sua “moralidade”. 

Nada a ver, porque o presidente nos EUA tem poder executivo e em Portugal não? Bom, quem assim se descansa deve perguntar-se o que levou Álvaro Cunhal em 1986, quando o seu partido tinha mais do décuplo dos deputados que hoje tem, a temer a vitória de Freitas do Amaral; o que levou toda a esquerda e todo o centro-esquerda a unir-se para eleger Soares. Se calhar estavam todos doidos, e quem tem razão é João Cotrim de Figueiredo, o candidato da Iniciativa Liberal, que esta segunda-feira dizia, com ar sério e olhos em alvo, que no caso de uma segunda volta entre André Ventura e José António Seguro teria de pensar muito bem em quem votaria, porque Ventura lhe parece agora mais moderado, “um político diferente” (e Seguro, supõe-se, um perigoso “xuxialista”). É caso para pensar muito bem, realmente, sobretudo se não lhe repugna a extrema-direita e o iliberalismo e sonha com uma revisão que não deixe pedra sobre pedra dos direitos sociais garantidos na Constituição. Desde que pensem bem, depois ninguém se pode queixar do resultado. 

Como cantava em 1973 no Teatro São Luís, em coro com o público, um presciente José Jorge Letria, “Quem te avisa teu amigo é / Cedo ou tarde perderás o pé / E nem tempo hás-de ter / Para ver como é.”

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