Neutralidade ou cumplicidade

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É muito conhecido o texto de 1946 do Pastor Luterano Martin Niemoller, texto frequentemente atribuído a Bertold Brecht.

O texto, apesar de sobejamente conhecido, recorda-se aqui:

“E não sobrou ninguém”

primeiro levaram os comunistas
mas não me importei com isso
eu não era comunista;
em seguida levaram os sociais-
-democratas
mas não me importei com isso
eu também não era social-democrata;
depois levaram os judeus
mas como eu não era judeu
não me importei com isso;
depois levaram os sindicalistas
mas não me importei com isso
porque eu não era sindicalista;
depois levaram os católicos
mas como não era católico
também não me importei;
agora estão me levando
mas já é tarde
não há ninguém para
se importar com isso.

O mundo mudou, os tempos são outros, os povos e a sua composição também.

É com a consciência das novas realidades que temos de apreciar os resultados das sucessivas eleições.

A meu ver as grandes lições a tirar da primeira volta das eleições presidenciais são: (i) cada eleição é uma eleição, com a sua individualidade; (ii) ninguém, candidatos, partidos, personalidades, é dono do voto seja de quem for; (iii) em cada ato eleitoral, cada cidadão tem de ser convencido da bondade das propostas apresentadas.

Aliás, os que, nesta eleição, não perceberam estas lições, à esquerda e à direita, tiveram maus resultados.

E é também por estas razões que a segunda volta é uma nova eleição. Nova eleição em que é necessário convencer, de novo, cada um dos eleitores

Aproveitando o repto de um dos candidatos, esta é uma “oportunidade para debater o modelo de país que queremos”.

Após os resultados da primeira volta tudo ficou mais claro. Como disse um dos candidatos que vai voltar a ter de convencer os eleitores, todos, referindo-se ao seu oponente, “há, entre nós, um oceano de diferenças”.

E é neste “oceano de diferenças” que fica a democracia, a sua qualidade, a nossa liberdade de participar e optar, e a nossa capacidade de afirmação da dignidade da pessoa humana numa comunidade nacional coesa.

Quando o confronto que agora vivemos é entre a democracia liberal e a democracia iliberal, seja lá isso o que for; entre o Estado de Direito e a sobreposição do poder, dos poderes, à lei, vejo com dificuldade a não-tomada de posição.

O silêncio dos democratas, sobretudo dos que assumem responsabilidades públicas, viverá sempre entre a dissimulação de uma duvidosa neutralidade e uma envergonhada cumplicidade.

Espero que, quando os levarem, haja alguém para se importar com isso.

Advogado e gestor

Diário de Notícias
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