O raio caiu duas vezes no mesmo sítio, o Brasil, ou não fosse o gigante sul-americano o país com mais trovoadas do mundo - 50 a 80 milhões de descargas elétricas por ano.Em 2025, caiu em Ainda Estou Aqui, vencedor, via Fernanda Torres, do Globo de Ouro para Melhor Atriz; em 2026, o trovão duplicou: Melhor Filme em Língua Não-Inglesa para O Agente Secreto, Melhor Ator para Wagner Moura.Se Ainda Estou Aqui retratava nas telas a paranoia, a repressão e os efeitos da tortura durante a ditadura militar numa história vivida no sudeste do país, O Agente Secreto retrata nas telas a paranoia, a repressão e os efeitos da tortura durante a ditadura militar numa história vivida no nordeste do país. Ou seja, o tema - repressão, ditadura e tortura - é o mesmo, só muda o endereço.Mas o mérito de incluir esses temas no espírito do tempo brasileiro não é só de Marcelo Rubens Paiva, autor do best-seller que deu origem a Ainda Estou Aqui de Walter Salles, nem de Kleber Mendonça Filho, argumentista e realizador de O Agente Secreto. É também de Jair Bolsonaro, o deputado que, por décadas, defendeu a repressão, a ditadura e a tortura para um nicho de eleitores, transformado em candidato a presidente que, em 2018 e 2022, convenceu quase 60 milhões de brasileiros a juntarem-se-lhe. Enquanto deputado, sugeriu em 1999 que uma testemunha que se manteve calada numa CPI fosse sujeita a pau de arara, instrumento de tortura comum na ditadura militar que consistia em suspender a pessoa com mãos e pés amarrados a uma barra.Em 2016, como já foi repetido aqui, mas convém nunca esquecer, dedicou o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff ao ídolo Brilhante Ustra, o mais notório torturador da ditadura militar, cuja magnum opus era introduzir ratos nas vaginas das prisioneiras políticas. Pois em 2025 e 2026, além de nos roteiros de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, o tema voltou à atualidade política, por incrível que pareça, pela voz do senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair e pré-candidato presidencial. Após a alta médica ao pai, o juiz Alexandre de Moraes mandou Bolsonaro, que tem acompanhamento médico 24 horas e acesso a hospitais de topo, de volta à cela, com televisão, ar condicionado, minibar e casa de banho privada, em que cumpre pena por golpe de Estado. Flávio acusou Moraes de “tortura” contra o admirador de Brilhante Ustra.A também senadora Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do bolsonarismo, que tentou impedir que uma menina de 10 anos violada fizesse um aborto legal, concordou com Flávio. Em documento enviado ao juiz fala em “prática de tortura” a propósito de um barulho constante do aparelho de ar condicionado do prédio que, no entanto, diz a Polícia Federal, fica desligado entre as 19.00 horas e as 7.30 do dia seguinte.Claro que em nenhuma circunstância é fácil estar preso, mas ainda há uma diferença colossal entre a (suposta) crueldade de Moraes e a de Ustra. E de dignidade entre os presos da ditadura militar e o preso Bolsonaro. Jornalista, correspondente em São Paulo