“Eu sou o Mário Matias, sempre fui só o Mário Matias”. Era a imagem do anti-herói, dizendo de si que não era protagonista de coisa nenhuma. Não é verdade. Foi-o de muitas histórias de Leiria, do Crédito Agrícola, da União Desportiva de Leiria e do Partido Socialista. Era a história dentro da história. No Tempo em que ainda não existia a noção de adolescência – perdeu cedo a mãe- o que lhe deixou marcas profundas “fiz-me velho aos dezasseis anos, tornei-me adulto”. A severidade paterna, formou-lhe a outra parte da personalidade. Tal como Adriano Moreira era filho de um polícia que após ter enviuvado reconstituiu família: “castigava-me, mas não me fiscalizava. Ele batia-me e eu no tempo livre que me restava fazia aquilo que me apetecia, era este o nosso trato”. Era um observador muito atento e um crítico da condição humana. A penicilina salvou-o. E como todos aqueles que nascem com falta de saúde, a primeira batalha travou-a consigo. Em regra, a luta pela saúde liberta tempo e aprofunda silêncios. As parábolas sarcásticas com que explicava a realidade revelavam a sua visão da vida. A vida para si constituía uma responsabilidade, quase uma missão. No final da jornada importava estar “safo”. Não gostava de gente convencida ou falsamente generosa, cultivava a dúvida e a incerteza para ter o domínio do facto. Nestes últimos noventa anos, a sociedade de Leiria passou pela sua vida -, de José Lúcio de Azevedo, Joaquim Vieira Pereira, José Ferreira Júnior, João Soares, Vereda e Kalidás Barreto- através de histórias contadas na primeira pessoa o que revelavam bem a importância da sua vida. A este propósito e em relação à Oposição ao Estado Novo dizia amiudadas vezes “nas reuniões clandestinas, não tínhamos muita proximidade, não confiávamos uns nos outros.” Ele Confiava nele. Era um homem muito sério, fazia-lhe confusão que os colegas cooperativistas, não tivessem uma remuneração dita “frugal”. Em 2001 as Caixas de Leiria e Torres Vedras exoneraram-se do Sistema Integrado, no entanto mantivemos colaborações estratégicas. Ele apreciava e respeitava o Dr. João da Costa Pinto. Depois as nossas ligações foram “descontinuadas”, autonomizaram-se os serviços, aumentou-se a reflexão e discussão quanto à governança/ modelo de negócio cooperativo. A este propósito dizia-me “o nosso modelo de negócio é a proximidade, só temos elevados excedentes de liquidez e capital porque estamos próximos do pároco, da misericórdia, dos bombeiros – nada de aplicações em fundos estrangeiros, cuja aplicação dos capitais contraria a fiscalização própria do modelo cooperativo. Somos fiduciários da nossa comunidade. Somos um banco de pessoas. É ali, no restauro daquela capela que está o nosso diferencial ou investimento. Ninguém o faz, se não o fizermos. Deixe que a cíclica crise imobiliária ou uma qualquer alteração legislativa venha e isto será o cargo dos trabalhos”. Tinha um forte respeito pelos agricultores, as caixas agrícolas foram constituídas por agricultores.: “No início os associados respondiam com o seu património de forma solidária e ilimitada. Não tínhamos capital social, mas cadastro social; o que aumentava a nossa responsabilidade e a solidariedade das cooperativas de crédito. Esse era um tempo em que não podia haver falta de ética ou prejuízos relevantes. A comunidade fiscalizava-nos porque tinha interesse. Tudo se perdeu”. A inteligência fazia com que raramente repetisse um mesmo erro. Um dia disse-lhe: - o Senhor é o Churchill do Crédito Agrícola; Não quis sê-lo. Foi presidente da Comissão de Organização da Caixa Central, vice-presidente desta e da Fenacam e Membro do Fundo de Garantia do Crédito Agrícola, fundou a Agrimútuo e a Servimútuo. Ninguém foi mais que ele; E poucos tiveram a sua importância no Crédito Agrícola. Ninguém foi mais derrotado do que ele; mas ninguém o venceu! E engrandeceu e maravilhou as Instituições em que se envolveu. Na maioria dos casos pro bono. Em 1992 regressou a Leiria, conheci-o melhor a partir de 1997, após ter perdido as eleições para a então Direção da Caixa Central. Era um tempo de contraditório e alternativas fortes. Era a favor da criação da Caixa Central mas contra a criação de um organismo central e hierarquizado, dado que tinha arduamente lutado em 1976 contra a dependência funcional da Caixa Geral de Depósitos, resultado da longa noite salazarista, sempre defendeu um modelo de rede competitiva, intercooperativa e solidária. A Caixa de Leiria foi a sua obra de vida da qual foi seu presidente entre 1980 e 2025. Constituiu a Fundação da Caixa Agrícola de Leiria o que lhe permitiu distribuir de modo organizado a componente social dos resultados financeiros às comunidades de Leiria, Marinha Grande e Ourém. Como um verdadeiro Senador de Leiria, fazia-lhe confusão a falta de interesse cívico tipicamente português, dizia-me “temos 11 mil associados, mas não comparecem às Assembleias Gerais mais de 40 associados. E logo se lamentava “as pessoas só se movem por interesses profissionais”. Cheguei-lhe a dizer, sabe como isso se resolve, venda-lhes a “ideia de bem profissional e coletivo”, essa é a força motriz do mundo. Ficou a olhar para mim...a ideia não lhe era estranha. Foi a vida que o formou, estudou à noite, lia aos Sábados e Domingos nas bibliotecas públicas, e como contabilista tornou-se chefe de Serviços. Foi candidato a seu pedido em lugar não exigível à Assembleia da República em 1976, foi candidato à Presidência da Câmara Municipal de Leiria em 1993, tendo a SIC noticiado a sua vitória. Anos mais tarde diria só me candidatei por vaidade, não tinha hipótese alguma de ganhar a eleição. Nunca pensei duplicar a votação. A sociedade de Leiria é muito conservadora. Ele no fundo era um Conservador, um conservador inquieto, mas um Conservador. “- Sabes que aquela satisfação de ter ganho, provocou-me uma súbita apreensão e sabes porquê. Porque as listas candidatas são feitas pelos partidos, aqueles que iam comigo na lista não eram meus amigos, eram rivais. Todos tinham a expectativa de um dia ocupar o meu lugar. Nós gravamos mais as tristezas do que alegrias”. Em relação ao 25 de Abril ouvi-o dizer “Trouxe-nos a liberdade. Não sabemos, se o anterior regime teria conseguido melhores condições económicas para o país. Isso até pode ser discutível. Mas trouxe-nos a liberdade, e isso é indiscutível. O 25 de abril trouxe-nos a liberdade de expressão”. Foi um homem livre que afrontava e lutava e dizia “não minto nunca”… para após uma pausa disparar com aquele enigmático sorriso … “talvez distorça a realidade”. Após 75 anos a trabalhar para a Caixa de Leiria, dos quais 45 anos como presidente, e tendo cessado funções, em 2025, na Caixa Agrícola e na Fundação dizia -o “faço-o com mágoa, pois deixo muitos filhos que levei para lá”. Como Edgar Morin interrogava-se: “estando no uso das minhas faculdades porque tenho que deixar de viver”. Ser idoso é viver com a idade. Sempre foi assim, Cupertino de Miranda fez Vilamoura com oitenta e muitos anos. O mundo é um palco estranho…pergunto-me, o que a Grécia antiga pensaria desta modernidade. Mas a modernidade é o que é. E sempre assim o foi, nunca percebi, qual a dificuldade em lidar com o conhecimento transformado em sabedoria. Tivemos discussões e travamos batalhas; estivemos, sempre, juntos sobre as causas, e os seus valores; e, felizmente, soubemos procurar soluções para visões que, não raras vezes, nos opunham. Afinal, respeitamos a capacidade de escolher, a chamada liberdade. E é a liberdade que escolhe causas. Mário Matias sempre foi um Homem de causas. Mário Matias foi um Homem de liberdade. Foi o saber amar a liberdade, e de a respeitar, que fez a sua Caixa Agrícola de Leira um dos bancos portugueses mais eficazes (centenário) e eficientes (capitalizado e com um dos melhores rácios de solvabilidade do mercado). Parabéns, Leiria; viva Mário Matias. Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedrasmanuel.guerreiro@ccamtv.pt