Maxerreque e Corno de África: mosaico em desagregação

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Imagine um mosaico antigo, do Levante ao Nilo Azul, cujos azulejos, Sudão, Somália, Etiópia, Iémen e Síria, estalam sob o peso de guerras civis e ambições regionais que preferem ruínas a equilíbrios. Em 2026, o Maxerreque e o Corno de África formam um sistema geopolítico em colapso onde ninguém joga para ganhar, apenas para que o outro perca. Este Oriente árabe e o seu vizinho africano compõem um tabuleiro cujas peças soberanas se desfazem em pó sob mãos que disputam influência sem jamais estabilizarem o conjunto.

No Sudão, as forças de Al-Burhan e as RSF de Hemedti transformaram Cartum em ruínas e Darfur num palco de genocídio, empurrando 14 milhões de pessoas para a maior crise de deslocação do mundo. Logo abaixo, o Sudão do Sul regressa ao abismo uma vez que Salva Kiir e Riek Machar reacenderam o conflito na província de Jonglei, expulsando multidões e repetindo o ciclo de colapso que marca a secessão de 2011.

A leste, a Somália é o arquétipo do Estado desfeito, com Al-Shabaab no sul e o governo federal em Mogadíscio dependente da proteção naval turca garantida pelo pacto de defesa de 2024. A Somalilândia, reconhecida diplomaticamente por Israel em 2025, desafia tecnicamente a doutrina de integridade territorial da União Africana, enquanto a província de Puntland consolida a sua autonomia no nordeste. Acima, a Eritreia de Isaias Afwerki mantém uma hostilidade de baixa intensidade contra Adis Abeba devido à disputa de Badme e ao desejo etíope de recuperar o acesso ao porto de Assab, tratando a guerra como a sua única gramática.

No centro, a Etiópia pulsa em fibrilação. Três anos após o cessar-fogo do Tigray, o país fragmenta-se com as insurgências dos Amhara e dos Oromo, os dois maiores grupos étnicos do país, a desestabilizarem o território. Enquanto fações tigrenhas rivais se digladiam, a Grande Barragem do Renascimento paira sobre o Egito, que responde armando Mogadíscio para tentar sufocar Berbera, o porto estratégico na Somalilândia que serve de pulmão marítimo à Etiópia.

No Iémen, os houthis reinam em Sanaa, embora retraídos após a Guerra dos 12 Dias contra o Irão e os ataques americanos e israelitas de 2025. O STC, apoiado pelos Emirados, mantém Adém sob tensão separatista contra o governo de Al-Alimi, mas abrandou o passo após o ultimato saudita. No Levante, a Síria continua a ser o palco onde Erdogan persegue as suas ambições neo-otomanas, atacando o Rojava curdo, apostando no HTS em Idlib e moldando uma Damasco às avessas, redesenhando a geografia à força.

Estas mãos desfazem o mosaico através de contradições profundas. A Arábia Saudita bombardeia as fações separatistas tuteladas pelos Emirados no sul iemenita enquanto prega a unidade, os Emirados fomentam a Somalilândia contra Ancara e a Turquia bloqueia as ambições navais etíopes.

O Irão, em perda estratégica relativa, vê os seus proxies desorientados e o seu braço regional enfraquecido pela derrota na Guerra dos 12 Dias, operando agora sob a sombra constante de um ataque americano, enquanto redes de influência que construiu começam a pesar mais como custo do que como ativo.

As potências globais falharam a contenção. Os Estados Unidos e a Europa, focados nos principais conflitos, como Ucrânia ou Gaza, e em cenários como Taiwan, assistem à afirmação do braço estratégico de Israel em Berbera e à evaporação da Rússia, cuja sombra já mal chega ao Mar Vermelho. Este recuo russo abre caminho à expansão turca, enquanto o regime persa luta para manter redes de influência que já não domina plenamente.

Este emaranhado ameaça, pelo menos, 15% do comércio mundial. Sem uma recomposição firme, a periferia africano-arábica tornar-se-á o epicentro de uma insegurança sem quartel, um mosaico que não se limita a partir-se, mas que reconfigura o mundo que o observa.

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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