Se veio ao engano, ainda bem, que a notícia é boa, como a descrição da decoração de um restaurante da moda, “um conceito alternativo e arrojado”!Trata-se de CloudFisher! O que é e para que serve?Imagine-se enquanto Dirceu Borboleta, à caça, com a rede em riste, “na esquina e à coca”, como o António Silva quando “foi aos leões na Estrela”, só que vai apanhar névoa! E como tudo se passa, nas terras altas do Rif, norte, e sobretudo no Monte Boutmezguida, sudoeste, é mais fácil levantar muros de rede, com malha mais fina que as vedações das nossas escolas. A névoa condensa na estrutura erguida e um depósito recolhe, entre 10 a 22 litros diários por metro quadrado!Esta “ciência marroquina da escassez”, remete-me para a criatividade da cozinha alentejana, pobre nos recursos e explosiva nos paladares das ervinhas-beira-rio, que só os pastores conhecem! A cozinha marroquina é assim também, embora o palato do alentejano rejeite o abuso de cominhos, habituado aos coentros. Esta referência culinária, embora vaga, serve como elogio aos criativos, que com pouco, marcam a diferença.Quanto ao sistema CloudFisher, são muros de polímeros resistentes a ventos de 120 Km/h e a forte exposição ao sol. A água recolhida, passa por filtros e tubos, que funcionam através de energia solar, o que cria um sistema independente e autónomo, que leva a água do nevoeiro da serra, às torneiras e depósitos nas aldeias. O impacto nas populações é brutal e deve causar, aos velhos/as com as costas partidas de tanto balde cheio carregarem, aquele sentimento do comboio perdido. “Agora”, dirão, “já vem tarde”, que para novo e moderno, está este regresso aos elementos.São já 1600 m2 desta “malha líquida”, que começam a alterar rotinas de pais e filhos, tendo estes registado melhores resultados escolares, catalisador do gosto de aprender e ir às aulas, a faísca que muitas vezes falta, a quem diz “não ser de contas”!Em resumo, esta “mineração de nuvens”, poderá ser um contributo importante para a restante África, cujos cadernos de encargos para os investimentos previstos, contemplam todos, largo espaço relativamente às mudanças climáticas e desafios adjacentes. Ou seja, os caminhos para a democracia, no sentido do caminho para sociedades mais justas, está directamente ligada à capacidade que os estados terão, em apresentar soluções locais, que contrariem as projecções macro, tanto para África, como para Europa.O clima e o oxigénio não se regem por hemisférios, regem-se habitualmente pela capacidade dos mais criativos, e marroquinos e portugueses já fizeram escola no âmbito dos imperativos e imponderáveis das nossas geografias! Politólogo/arabistawww.maghreb-machrek.ptEscreve de acordo com a antiga ortografia