Maria Alzira Seixo: Um ensaísmo crítico e vivo

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Maria Alzira Seixo (1941-2026), professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, discípula de Jacinto do Prado Coelho (1920-1984) e de David Mourão-Ferreira (1927-1996), concluiu a sua licenciatura em filologia românica e foi professora do Liceu Rainha Dona Leonor (1963-64) e do Liceu Nacional de Setúbal (1964-65). Mas é no ensino superior que irá desenvolver a sua prática docente depois de doutoramento em Paris na École Pratiques des Hautes Études onde foi aluna de Roland Barthes, seu coorientador de tese, e de Greimas. Frequentou as aulas de Todorov e de Julia Kristeva, de Jacques Lacan, sendo, a partir de 1966, docente no departamento de Literatura Francesa. Carreira de exigência e de fidelidade à literatura, foi directora desta faculdade entre 1996-1998. As literaturas portuguesa e francesa foram o seu campo de trabalho, estudando autores clássicos e modernos, tendo, em 1968, publicado o seu primeiro volume de ensaios: Para Um Estudo da Expressão do Tempo no Romance Português Contemporâneo. Agustina Bessa-Luís, Vergílio Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, António Lobo Antunes, eis alguns dos ficcionistas sobre cujas obras se debruçou. Fundou e dirigiu revistas como a Dedalus (da Associação Portuguesa de Literatura Comparada), fundada em 1988 e, na senda dessa publicação, divulgou entre nós as terias do pós-modernismo, articulando com os estudos sobre o estruturalismo de que foi, com Eduardo Prado Coelho (1944-2007) uma das mais argutas analistas.

Colaboradora permanente do Jornal de Letras, bem como da Colóquio-Letras, Maria Alzira Seixo co-dirigiu com David Mourão-Ferreira, nos anos de 1970, os volumes Portugal A Terra e o Homem e, como conhecedora profunda da semiologia e do estruturalismo, não se eximiu a escrever ensaios capitais sobre essas escolas do pensamento crítico e teórico, facto que terá eco, nos anos 70, 80 e ainda dentro da década de 90, na colecção Textos Literários (Editorial Comunicação) por si coordenada e onde as maiores figuras da academia irão participar (de Manuel Gusmão a Margarida Vieira Mendes, de Paula Morão a Luís Miguel Nava, de Cristina Almeida Ribeiro a Abel Barros Baptista, entre outros que escreveram prefácios e coordenadas de análise literária absolutamente inescapáveis). De entre os inúmeros cargos que exerceu, Maria Alzira Seixo será igualmente presidente da Associação Interbacional de Literatura Comparada e Presidente da Associação Internacional dos Críticos Literários, sucedendo ao seu mestre Jacinto do Prado Coelho. Professora convidada nas Universidades de Poitiers, de Chicago, de Santa Barbara, da John Hopkins em Baltimore, igualmente colaborou com as universidade do Minho e de Évora. Organizou mais de dez volumes sobre literatura portuguesa, e a ela se deve a realização de seis grandes colóquios em Portugal, no que, consequentemente, vem a ser a sua intervenção no Erasmus Intensive Program onde será professora de Literatura Europeia.

Membro do Conselho das Ordens Nacionais, sócia correspondente da Academia de Ciências de Lisboa, Maria Alzira Seixo foi uma das mais convictas opositoras do actual Acordo Ortográfico, considerando que "a ortografia não é a roupagem da língua, indiscriminada ou meramente funcional; ela é uma parte basilar e inalienável de profundo sentido histórico, do seu corpo significante". De entre as suas obras ensaísticas gostaria de destacar, pela agudeza e penetração das suas propostas de análise, ou pelo alcance teórico da sua visão problematizadora do literário, livros como A Palavra do Romance, Ensaios de genologia e análise (1986), Viagem e Literatura (1997), Poéticas da Viagem na Literatura (1998), Lugares da Ficção em José Saramago. O Essencial e outros ensaios (1999), A Vertigem do Oriente (1999), Eu Fui ao Mar Buscar Laranjas: ensaio sobre Luísa Dacosta (2001), Os Romances de António Lobo Antunes (2002).

Professora de inúmeras gerações, Maria Alzira Seixo deixa um legado fundamental no âmbito da ensaística. Não deixou de, politicamente, marcar as suas posições com a força das suas convicções, fiel a um ideal de humanismo que tinha de estar assente numa profunda consciência do património literário e cultural português e europeu.

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