Na luta política, estão hoje mais válidos do que nunca dois princípios enunciados no século XIX e no século XX - um por Talleyrand, outro por Carl Schmitt. Talleyrand dizia que governar era “escolher entre dois inconvenientes”; Schmitt defendia que era o Inimigo que fazia o Amigo e não o contrário.Lembrar estes princípios talvez seja útil para entender e resolver alguns dilemas nas escolhas políticas. Até porque, muitas vezes, em vez de buscarmos o menor inconveniente, procuramos o grande ideal; e escolhemos mal, cedendo à vaga dominante e fazendo exigências de perfeição aos políticos que, apesar de nos estarem mais próximos nos valores e no pensamento, nos desagradam por questões menores ou porque “todos dizem” que são desagradáveis.E porque para o grande ideal falta sempre muita coisa, talvez não seja pior centrarmo-nos na noção schmittiana de Amigo e Inimigo: é pelo Inimigo, pelo Inimigo principal, que devemos descobrir o Amigo ou, pelo menos, o aliado objectivo.Quando toca a casos concretos, Donald Trump é certamente o exemplo mais ilustrativo e o mais gritante: mesmo à direita, haverá poucos que não se incomodem com o estilo desconcertante ou até brutal do presidente norte-americano. Porém, ceder a incómodos não pode ser um objectivo de vida; assim, como não-americanos, mas como dependentes de algum modo da política americana, o melhor a fazer para não nos deixarmos cegar pelo fogo de vista talvez seja perguntarmo-nos: com Biden ou Kamala estaríamos melhor? E não estará Trump, apesar de tudo, a cumprir o seu programa, defendendo os valores populares e conservadores da nação, da família, da liberdade?Também, quando da operação militar para tirar Maduro do poder, os mesmos que falam nos horrores do chavismo e da ditadura que oprime e arruina a Venezuela há quase 30 anos, mostram-se incomodados com a “quebra do direito internacional”. Aparentemente, preferiam que Maduro continuasse a quebrar todos os direitos, prendendo, torturando e matando opositores políticos, depois de oito milhões de venezuelanos terem emigrado.De facto, o presidente norte-americano foi prático e expedito, mas a verdade é que já levou Caracas a libertar alguns presos políticos e deixou “apreensivos” o ditador de Cuba e congéneres.O mesmo se aplica às eleições presidenciais portuguesas no próximo Domingo. À escala nacional, também André Ventura tem um estilo excessivo e tende a exagerar na qualificação dos inimigos. Em Economia, oscila entre a liberdade económica e o Estado Social, numa incerta “terceira via”, algures entre o liberalismo puro e duro e o dirigismo socialista (de resto, como a preconizada pelo pensamento social-cristão). Por tudo isso, tem havido quem, à direita, incomodado com o estilo e as imperfeições do candidato da Direita e invocando a barreira “antifascista” que encontrará numa eventual segunda volta, sugira o voto em candidatos mais liberais, com outras iniciativas, mais “civilizados”, mais “moderados”. Podem até não ser de direita e dizê-lo claramente; podem até ser pelo aborto e pela eutanásia, e cegos devotos de Bruxelas, mas, que Diabo, sempre parecem bem, são mais correctos, mais agradáveis.Ou seja, o estilo e os excessos de Ventura, tal como os de Trump, podem levar-nos a ignorar a substância, escolhendo figuras e projectos hostis aos princípios que defendemos.A verdade é que, nestas eleições, com todas as suas imperfeições e erros e num tempo que ainda não é de sínteses, André Ventura é o único candidato da direita. Politólogo e escritorO autor escreve de acordo com a antiga ortografia