Um dos privilégios da profissão/vocação de professor é o muito que aprendemos com os nossos alunos. Recentemente, participei num júri de doutoramento sobre alterações climáticas na região do Ártico. A autora, Laura Dorsch, partilhou as suas experiências junto de comunidades do povo Sámi (mais conhecidos por lapões) no Norte da Noruega. O seu vasto território tem sido fustigado pela crise ambiental, e em particular pela emergência climática. A sua paisagem vital, associada à dependência das manadas de renas, está em rápido declínio. Com o colapso do mundo físico rasgam-se também feridas mentais, que alguns julgariam ser apenas típicas das sociedades industrializadas e "desenvolvidas": a ecoansiedade, a biofobia, a solastalgia... conceitos manifestando a dor profunda causada pela perda do lar no sentido mais profundo: a nossa "terra", os lugares identitários que nos deram a segurança de uma pertença..Na perda, todos somos lapões. Que o digam os nossos compatriotas transformados em refugiados ambientais pelos incêndios florestais de 2017. E os milhões sofrendo com a ausência de políticas públicas firmes, capazes de defender as fontes da vida nos territórios naturais, sejam florestas ou estuários, zonas rurais ou urbanas. A política de ambiente é hoje o mais atacado sinónimo do interesse público e da justiça intergeracional. Se não quisermos tombar na ecoparalísia - a impotência de sentir que já tudo está perdido para a humanidade neste planeta devastado -, uma das patologias morais associadas à vitória do império dos grandes interesses particulares sobre o que deveria ser o primado do difuso bem comum, então temos de agir em conjunto, para inverter o perigoso sentido da corrente..Combater o empobrecimento ambiental com a promoção organizada da vida natural, é precisamente o que é visado no Algarve por uma rara conjugação de conhecimento, civismo e determinação pela causa pública. Uma coligação de boa vontade - formada pela Fundação Oceano Azul, Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, Município de Silves, Junta de Freguesia de Armação de Pêra e Associação de Pescadores de Armação de Pêra - levou a cabo durante três anos um processo participativo, que ganhou a adesão de mais de 70 entidades, para propor ao Estado a criação do Parque Natural Marinho do Recife do Algarve - Pedra do Valado. Trata-se de uma faixa costeira, entre o Farol da Alfanzina (limite oeste) e a Marina de Albufeira (limite este), abrangendo na totalidade 156 km2, sendo que apenas 4 km2 (2,6% do total) são de proteção total..O objetivo principal consiste na preservação da riquíssima biodiversidade do recife rochoso de baixa profundidade, fundamental como valor ecológico, mas também como sustento de atividades com forte impacto social e económico, como a pesca comercial, a pesca lúdica e as atividades marítimo-turísticas. Trata-se de uma iniciativa inovadora, e não apenas em Portugal, sob vários ângulos. Pela seriedade do trabalho científico de suporte (que levou à descoberta de 12 novas espécies para a ciência em geral). Pelo rigor do processo participativo, envolvendo os diferentes atores e interesses em múltiplas sessões de debate visando consensos esclarecidos e construtivos. Pelo modelo de cogestão proposto para depois da implementação da área protegida, que deverá ser faseada para ser segura. Uma enorme e esforçada realização da sociedade civil, que aguarda dos poderes públicos o assumir do papel que lhes compete..Professor universitário