Livros... livros...

A falta que nos fazem o sol e o ar puro, os amigos e as coisas essenciais... E se temos de proteger os outros para que a peste se não transmita mais, contamos com a ajuda dos livros e com o diálogo dos poetas, dos escritores, dos romancistas.

Por estes dias, soubemos que os livros vão regressar aos supermercados. É um pequenino sinal. Mas é tempo de ir um pouco mais além. Felizmente temos as bancas dos jornais e revistas. Mas por que não ouvir o apelo dos livreiros - nem que seja em vendas de livros "ao postigo"? É verdade que temos as edições digitais. E temos já os grandes clássicos ao alcance de um dedo, como tivemos as históricas bibliotecas móveis da Gulbenkian. Mas seria bom cuidar de todo o tipo de leitores. Os livros são janelas abertas para a liberdade. Daí a minha sugestão.

Teolinda Gersão acaba de dar à estampa a O Regresso de Júlia Mann a Paraty (Porto Editora, 2021). É um belo encontro com a difícil vida humana. São três novelas entrecruzadas. Primeiro temos Freud pensando em Thomas Mann em dezembro de 1938. "Tudo na vida de Thomas Mann se traduzia numa dor maior do que é usual nos seres humanos, apesar de ele possivelmente não a sentir desse modo, porque se tornara quase incapaz de sentimentos." É um percurso complexo de alguém que começa por ver o trágico século XX pelo lado das ilusões imperiais... Depois, Thomas Mann pensa em Freud em dezembro de 1930, ou seja, antes do momento pelo qual a obra se inicia. E assim encontramos uma defesa por antecipação das questões antes apresentadas. E lembra o que disse a seu irmão Heinrich: "Enquanto tu floresces eu reduzo-me a estilhaços."

Mas o tempo não confirmaria o juízo. Agora, recebera o Prémio Nobel (1929), atingira a glória e deixara para trás a ideia negativa. Mas perguntava-se: "Terei porventura vendido a alma ao diabo por uma carreira de sucesso?" Encontrava-se entre Schopenhauer e Goethe... "Se me interrogo donde procedem, hereditariamente, as minhas aptidões, tenho de recordar o famoso verso de Goethe e dizer que do meu pai me vem "a seriedade na conduta" e da minha mãe, pelo contrário, "a natureza jovial", isto é, a inclinação para a arte e as coisas da sensibilidade, e o "gosto de fantasiar" no mais amplo sentido da palavra." E vem a história da família. Entre Lübeck, a Liga Hanseática dos Budden bruck e o Brasil. Os Brühns com a costela portuguesa de Júlia Silva Brühns. O entrelaçado da saga, com Júlia sensual, mestiça, índia e mulher. Num mundo cheio de contradições e complementaridades...

A paixão dos livros faz-se destes encontros. E Teolinda Gersão, encenadora da dramatização, diz-nos: "Estamos todos cansados do isolamento, da doença e das notícias catastróficas que todos os dias nos chegam, assim como das falhas de planeamento no país para o combate à pandemia. Vamos ver se depois disto aprendemos a ser menos consumistas e a cuidar mais do planeta. Receio que não se aprenda nada..." (DN, 11.2.2021).

Concordo. Estamos perante uma questão de sobrevivência. Percebemos que estes confinamentos (palavra infeliz) nos têm ensinado a ir além do imediatismo e da tentação de julgar que a indiferença resolve alguma coisa... Temos muito a aprender. Devemos compreender o que Mounier dizia sobre os acontecimentos serem nossos mestres interiores. Tirar consequências dos sinais dos tempos significa que a humanidade, os direitos, as responsabilidades, a liberdade, o respeito mútuo, a dignidade das pessoas nos obrigam a aprender o "saber só de experiências feito"...


Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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