Lítio: sim e quanto antes

Não vou cometer nenhuma inconfidência, porque não revelarei nomes, nem afiliações. A história tem cerca de quatro anos e passou-se numa reunião com um interlocutor de um partido político com representação parlamentar, que se manifestava contra diversas formas de produção de energia. Curioso, perguntei se era assim porque sim ou se apresentavam uma proposta alternativa para a produção sustentável da energia que move o mundo. A conversa avançou até chegar a um paradoxo, que está hoje bem patente no incompreensível movimento de contestação à exploração das reservas de lítio existentes em Portugal.

Vamos então à dita síntese. O meu interlocutor manifestou-se contra a continuação do uso dos combustíveis fósseis. "De acordo", disse eu, "desde que salvaguardado um processo inteligente e viável de transição". Depois, revelou-se contra o nuclear, porque era inseguro. E também contra a energia hídrica, porque as barragens inundavam o território - "aquele que já quase não tem pessoas", retorqui - e mexiam com os ecossistemas. Também não aceitava mais eólicas, porque tinham impacto na paisagem, causavam ruído e as suas pás talhavam os pássaros. De caminho, ainda me recordou que os parques fotovoltaicos, que sugam do sol a energia elétrica, também não eram bem-vindos porque ocupavam demasiado o solo e, para isso, já bastavam as estufas. Ah, já me esquecia! Também foi categórico na rejeição do lítio, porque as minas deviam acabar.

Confuso, apesar de já ter ouvido algo semelhante de outros primos políticos do meu interlocutor, revi mentalmente o racional - ou irracional, se preferirem - do meu interlocutor: "Portanto, é contra o nuclear; é contra o petróleo, o gás e o carvão, pelo que deverá ser a favor das energias renováveis; mas é contra o hídrico, o eólico, o fotovoltaico e... o lítio, que faz falta às baterias que armazenam a eletricidade renovável!". Na tentativa de encontrar terreno comum, vagueei pela sala até que o meu olhar aterrou sobre a mesa, mais propriamente sobre o telemóvel do meu interlocutor. Eureka! Perguntei: "E, diga-me, como acha que a bateria do seu magnífico "smartphone" funciona? Com ou sem lítio?"

Este é o estado da arte que carateriza uma certa fação política que se opõe à exploração do lítio em Portugal. Como têm braço político, influência nas ONG, palco mediático e ativistas internacionais, que não sabem nem querem saber da história e das necessidades locais, estão a veicular um movimento que, mais do que irracional, contribui para perpetuar o subdesenvolvimento no interior. Ultimamente importaram uma rapaziada que andou pelo Barroso e por outros locais a pintar, em tudo o que era cruzamento, o suposto grito de revolta "Lítio, não!". Uma fraude, pela simples razão de que aquelas inscrições não foram feitas pelos residentes locais.

O que está em causa? Simples, o lítio é crítico para a transição energética. Portugal tem a sexta reserva de lítio do mundo, que é a maior da Europa, avaliada em 60 mil toneladas. Nunca o país, se excluirmos os Brasis de outros séculos, teve tamanha oportunidade de mandar num recurso que todos querem. Os territórios onde existe o lítio estão moribundos, com um passado e presente de recessão e, em muitos casos, miséria, que lhes reduziu a população a algumas centenas de pessoas velhas, porque os jovens fugiram há muito. Perante tudo isto, aquilo que deveriam estar a reivindicar era não menos, mas mais lítio. E também mineração responsável, respeito por regras de exploração e recuperação ambientalmente exigentes, atestadas por estudos de impacto ambiental nos termos da lei, investimentos na cadeia de valor para além da mineração e retenção de valor nas regiões em causa.


Professor catedrático

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