Leituras e Leitores

É quase sempre com admiração que os estrangeiros comentam o Dia de Portugal por não comemorar a independência, uma batalha, um grande feito, mas antes a celebração de um poeta. O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, 10 de junho, teve a sua origem nas comemorações dos 300 anos da morte de Camões, em 1580, coincidindo com a sucessão do Cardeal D. Henrique por Filipe II de Espanha, que assumiu o título de Filipe I de Portugal. A geração romântica oitocentista exaltou a figura de Camões como grande mito nacional, não apenas como o autor da épica dos feitos portugueses, mas como aquele que morreu com a pátria e, por isso, se tornou seu lídimo representante.

Sabemos como o Estado Novo se apropriou da narrativa de Os Lusíadas, leitura obrigatória e tenaz da formação juvenil desse tempo, selecionando os episódios heroicos e proibindo o que podia conspurcar os costumes. A épica de Camões é um texto de grande beleza que a nossa memória massacrada (as longas aulas a dividir e classificar orações) ainda não conseguiu resgatar para as novas gerações. Como seria bom reler Os Lusíadas através da épica contemporânea de Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, aproveitar os confrontos culturais para debater a interpretação histórica, ou tão simplesmente identificar episódios reinventados e revividos por heróis contemporâneos.

Esta reflexão leva-nos à questão da leitura e dos leitores. Há a tendência para os velhos do Restelo imprecarem contra uma nova geração que está cada vez mais afastada dos livros, da leitura e da escrita. Embora nos faltem mais estudos sobre os hábitos de leitura em Portugal, os resultados da última avaliação internacional a alunos de 15 anos sobre as suas literacias em Leitura, Ciências e Matemática, conhecido por PISA (Programme for International Students Assessment), que teve a participação de 79 países e mais de 600 mil alunos, mostra que, no período entre 2000 e 2018, Portugal foi um dos 13 países que apresentou uma evolução positiva, tendo obtido na leitura uma pontuação cinco pontos acima da média da OCDE. Para esses resultados muito contribuíram políticas públicas desenvolvidas de forma consistente ao longo das últimas décadas, começando pela criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (1986), a que seguiu o lançamento da Rede de Bibliotecas Escolares (1996) e, por fim, o Plano Nacional de Leitura (2006).

Trata-se de várias peças da construção de uma estratégia que tem vindo a consolidar-se e é considerada uma das mais inovadoras e operativas no contexto internacional. O Plano Nacional de Leitura lançou, em 2017, a sua estratégia para a década, recuperando e alargando a experiência dos primeiros 10 anos de ação. Se prosseguem os objetivos de promover o gosto, os hábitos e as competências de leitura da população portuguesa, há agora um alargamento do público-alvo e dos parceiros, passando a incluir, por exemplo, as autarquias e as universidades. Por outro lado, importa considerar novos desafios, que passam por mudanças nos hábitos e também nas plataformas utilizadas para a leitura e a escrita.

Nestes dias, decorre em Madrid, inserido na Feira do Livro, o Seminário "Ibero-américa lê", com a participação de 10 países da região, entre os quais Portugal, e mais de 3000 inscritos. A questão de partida parecia pessimista: "É possível uma sociedade de leitores?", e outras perguntas orientaram os debates: "Para quem a democracia? Para quem a leitura?", "Que leitores queremos?". Não é difícil perceber as enormes diferenças entre países e comunidades: onde uns discutem o digital, outros confrontam-se com o acesso aos livros e ainda outros com o direito à oralidade. E foi das regiões mais desfavorecidas que veio a constatação: não são os mais ricos que leem mais. E depois o grito: a nossa gente tem direito à imaginação.

Como nos disse logo no início o filósofo catalão Daniel Innerarity, a era da incerteza pode ser um engenho da democracia, evitando os modelos estáticos e unívocos. Não lemos nem interpretamos da mesma maneira, mas somos uma comunidade que continua a ler, ainda que de forma plural e diversa. E essa é a melhor notícia para construir o futuro.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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