Eis uma pergunta que sempre me seduz: como vemos os rostos no ecrã do cinema? Em boa verdade, creio que o inferno das selfies rasurou a pergunta. A obscenidade da maior parte das trocas que acontecem nas redes anti-sociais, a par da mediocridade de muitas zonas do espaço televisivo, produziu mesmo um novo tipo de espectador. Jovem, sobretudo. Mas até mesmo a noção de “juventude” foi parasitada pelo novo sistema audiovisual - ser jovem passou a ser encarado como uma virtude social indiscutível ou, então, o que vai dar ao mesmo, como um estatuto que permite dizer os mais tristes disparates em algum ecrã acolhedor e ser tratado como guru da felicidade por vir.Vivemos no meio daquilo que Philippe Sollers descreveu como o “niilismo ordinário”, confirmando o seu austero diagnóstico: “O social desagrega-se, os sexos, salvo excepções, já não têm grande coisa a dizer entre si, a ignorância prolifera em todas as zonas.” Eis um labirinto de temas que seria interessante tentar, pelo menos, percorrer para, 50 anos depois, fortalecer a nossa democracia.A indiferença triunfa. Os próprios decisores políticos aceitam abdicar do recato que as suas negociações (também) implicam. O fundamental escrutínio público foi transformado numa telenovela que é preciso alimentar de meia em meia hora, a par da multiplicação infinita de “análises”. Tenho saudades do tempo em que os críticos de cinema eram insultados por quererem analisar aquilo que, segundo a estupidez do senso comum, era irrelevante - agora, a asfixiante densidade populacional dos “analistas” atingiu índices superiores à dos fadistas..Lady Gaga e Joaquin Phoenix: Romeu e Julieta, século XXI..É tudo global, enfim. É mesmo. O novo Joker: Loucura a Dois, de Todd Phillips, não fala de outra coisa. A saber: dessa perversão quotidiana com que falhamos a realidade, promovendo as máscaras de um espectáculo banalmente mediático. Ainda que “continuando” o anterior Joker (2019), também de Phillips, também com o genial Joaquin Phoenix, não estamos no domínio saturado das sequelas que, nas últimas décadas, através de produções da Marvel e da DC Comics (a que pertence a personagem de Joker), têm tentado destruir os valores sagrados do espectáculo cinematográfico. Assim criaram um público jovem que julga que um filme é uma colagem arbitrária de videoclips para ver na ubiquidade do seu “smartphone”.São duas personagens trágicas: Joker e Lee Quinzel, esta reinventada pela presença mágica de Lady Gaga, uma rara actriz de cinema - e para o cinema. Porquê trágicas? Porque, quais Romeu e Julieta do século XXI, não existem a não ser uma para a outra, cada uma através do seu duplo desigual. Estamos no interior da grande tradição melodramática de Hollywood, mas quem se lembra disso? Quem sabe sequer que existiram mulheres como Lillian Gish, Bette Davis e Katharine Hepburn? Nem mesmo os feminismos mais radicais, sobretudo os mais radicais. E ainda menos o jornalismo que confunde o património de Hollywood, e as suas muitas raízes europeias, com uma curiosidade mercantil que se esgota nas receitas sistematizadas pelo Box Office Mojo.Fiquemo-nos pela maravilha rudimentar: vejam-se os grandes planos de Gaga e Phoenix - se possível num ecrã IMAX. A Marvel & Cª conseguiu essa triste proeza cultural que foi reduzir a utilização dos grandes ecrãs (e dos sons das respetivas salas) a matrizes de agressão visual (e sonora) que ignoram a densidade humana que pode habitar uma imagem. Em Joker: Loucura a Dois, cada rosto é uma paisagem e, mais do que isso, uma celebração do mais puro prazer cinéfilo. Prazer? A palavra está também a ser destruída por todos os fundamentalismos que andam por aí a “libertar” o cinema, a literatura e a arte em geral. Há mais de meio século, Roland Barthes escrevia: “Um Francês em cada dois, segundo parece, não lê; metade da França está privada - priva-se do prazer do texto.” Fica uma consolação romântica: somos todos franceses.