A história que vos quero contar é a de um herói, a de um homem iluminado, alguém que nasceu com a ideia de que, dificilmente, sairia de São Mamede da Ventosa, freguesia de Torres Vedras, onde nascera de uma família pobre e praticamente analfabeta, sem perspectivas de poder sequer sonhar.Era gente de trabalho, de amanhar a terra, faziam, como a maioria do meio rural, o que tivesse e precisasse de ser feito. José Constantino não era como a maioria, diferenciava-se dos amigos, dos colegas, dos vizinhos. Desejava mais, estava disposto a todos os sacrifícios. Foi trabalhar para as obras em Lisboa, aprendeu a ser maquinista no metropolitano e fez a tropa em Elvas onde tomou o gosto do comércio, do negócio na cooperativa militar onde se tornou imprescindível, o que foi uma espécie de bênção pois foi esse talento que o salvou de ir para a guerra em África.No final de 1973 comprou por trepasse a mercearia da aldeia e foi aí que tudo verdadeiramente começou. Vendia de tudo, mas o bacalhau mudou-lhe a vida. Foi a partir dessa mercearia, na Ventosa, que nasceu uma das indústrias de maior sucesso do país e, ao contrário do que se possa pensar, a sua primeira virtualidade não foi a sua legítima e necessária ambição, mas sim a confiança nos vizinhos que entravam na mercearia, nos que tantas vezes, em plena crise económica nacional durante a Guerra Colonial, não tinham como pagar o que levavam. Mas ali vendia-se fiado, ali confiava-se e as pessoas levavam postas de bacalhau para dar de comer à família, ali Constantino não deixava ninguém para trás, ninguém saía de lá sem comida por não ter dinheiro.Foi assim que tudo aconteceu. Da venda na Ventosa, o senhor José quis crescer. Ter mais sítios, ganhar mais dinheiro, empregar mais gente, crescer no negócio. Sem praticamente sair da Ventosa, começou a lidar com o mundo. Porque não comprar diretamente a matéria-prima aos noruegueses ou aos islandeses, pensou. Compraria assim mais barato e sem intermediários. E asseguraria a qualidade do bacalhau que começou por vender como grossista, até 1990.Pensou e executou. Mas a sua cabeça não parava, a sua imaginação não lhe oferecia um dia de descanso… e ainda bem. Se passara a comprar sem necessidade de intermediação, o próximo passo era o de melhorar o preço através da garantia do controlo da matéria-prima, o que conseguiu negociando e investindo diretamente em empresas locais que tinham barcos e rotas próprias, que lhe permitiram chegar ao chamado “bacalhau salgado verde” que era previamente seco numa pequena fábrica na Gafanha da Nazaré, em Aveiro… o que fez até criar as condições para mudar toda a operação para São Mamede de Ventosa, a sua terra, o seu centro.José Constantino é um grande português. Que a nossa Caixa de Torres Vedras homenageará hoje na terra que transformou no centro do seu mundo. Será um momento que me orgulha, que nos orgulha a todos, que orgulha também um país que continua a ter os seus marinheiros que ousam transformar cabos terríveis numa boa esperança e que nos define para lá de todas as tormentas.Celebraremos hoje, na Ventosa, esse particular talento português de inventar mundos a partir da capacidade de sonhar e de arriscar a concretização do que se pensa. Celebramos um homem que emprega largas dezenas de trabalhadores na sua fábrica da Moçafaneira e em Aveiro. Dá trabalho a muitas famílias na Ventosa, que continua a ser dominante no negócio do bacalhau a que junta uma posição importante no setor dos vinhos – tem uma propriedade com 200 hectares, uma das maiores vinhas do Oeste.Celebramos a ousadia de um empreendedor que se fez ao mar. Que foi até a terras de vikings sem saber falar uma única palavra de inglês. Que teve dois filhos que o orgulham, Edgar Constantino que administra a Quinta da Almiara, e a nossa Elisabete Constantino que integra os órgãos sociais da Caixa Agrícola de Torres Vedras.Celebramos, por fim o que nos une. Os três “Cs” – Comunidade, Cooperação, Confiança, três ramos essenciais do Cooperativismo.Queremos que a memória não desapareça entre gerações. Que as pessoas saibam que o bacalhau não vem das caixas de papelão, mas de pessoas concretas, do sacrifício de pessoas de carne, osso e alma. Há mil maneiras de fazer bacalhau, mil maneiras de construir heróis, de os revelar, de os ajudar no seu caminho.Obrigado, José Constantino.Obrigado, senhor José Constantino. Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedrasmanuel.guerreiro@ccamtv.pt