Inundações do Inverno, fogos no verão: a história de um triste fado

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 “O que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for.”

Francisco Sá Carneiro

Todos os anos, consoante a respectiva estação, Portugal é inundado de avisos, umas vezes de tempestades, outras de fogos, sem que, ao fim destas décadas, se consiga, nem sequer evitar as consequências de tais fenómenos, quanto mais actuar numa lógica preventiva.

A tempestade Kristin, não deixando de assinalar a curiosidade de aos eventos metereológicos mais extremos se ter tornado um hábito atribuir maioritariamente nomes femininos, e em especial as suas vítimas, directas ou indirectas, teve o condão de demonstrar que pouco ou nada se conseguiu aprender com episódios passados, como o apagão do ano 2025.

À evidente falta de verificação de sistemas que, obrigatoriamente, devem conseguir funcionar, mesmo em condições extremas, de que a drenagem é só um exemplo, soma-se a falência do sistema de distribuição de electricidade e de distribuição de água, ainda não totalmente repostos, passados todos estes dias. O que isto significa, em termos inequívocos e claros, é que existiram – e à data em que se escreve estas linhas ainda existem – populações que se viram sem socorro e completamente impossibilitadas de o solicitar, o que explica depois as mortes daqueles que, sentindo-se ao abandono, decidiram tomar iniciativas que acabaram por os vitimar.

Aqui chegados, ano após ano e perante a reiterada ineficácia do sistema de protecção civil e a lentidão e insensibilidade dos verdadeiros responsáveis políticos, é obrigatório renovar a pergunta sobre o caríssimo SIRESP. A verdade é que o alegado sistema de comunicação das forças de segurança e de protecção civil, supostamente à prova de toda a espécie de calamidades, na realidade, após as reiteradas ameaças de morte em pelourinho público, acaba sempre por sair da atenção da opinião pública e, com tal, ir-se mantendo.

Por outro lado, se o nosso Primeiro-Ministro andou muito tarde e preferiu dar prioridade a ir ver aviões privados antes de visitar as populações mais atingidas, como as da Figueira da Foz, era certo e sabido que se procuraria retirar proveito político da desgraça. Se, de um lado, temos um já felizmente apagado vídeo do Ministro Leitão Amaro que mais parecia um filme de acção de péssimo calibre, do outro não podia faltar André Ventura que, desta vez não fingindo estar a apagar fogos como fez no verão, rapidamente procurou capitalizar a desgraça alheia em proveito próprio.

Contudo, o que me causa maior perplexidade não são os que aparecem mas os que desparecem, como é o caso da Ministra da Administração Interna, que até ao presente não apenas nada explicou, como não assumiu qualquer responsabilidade, obviamente política, pelo renovado falhanço dos nossos sistemas. Daí que, com o devido respeito, não possa concordar com a lógica tipicamente portuguesa de se gozar com tudo o que de mal sucede e se passar rapidamente à próxima piada.

As mortes e a desgraça financeira de cidadãos merecem ser mais do que uma piada ou encarada como um triste fado. Merece, acima de tudo, que se faça o que nunca se logrou fazer até agora: resolver o problema das comunicações definitivamente, nomear para os cargos pessoas que, em vez do seu principal atributo ser um cartão político, tenham reais e comprovadas competências e acabar com negócios que, sendo muito proveitosos para alguns dos que neles tiveram intervenção, são ruinosos para o povo português, quando não mesmo mortais. E isto não pode ser, pura e simplesmente, numa primeira fase calado e numa segunda executado, sob pena de no próximo verão estarmos a contar mortes por incêndios e daqui sensivelmente a um ano as notícias serem sobre cheias e os seus efeitos devastadores.  

Portugal é o país do fado mas nem sempre tem de ver a mesma história cantada. É possível mudar o rumo, principalmente quando as pessoas se unem e esse é o repto que deixo, perante um rasto de destruição e mortes que não poderia ter sido completamente evitado, mas cuja amplitude poderia, essa sim, ter sido muito menor.

 Duas últimas notas: de um lado, as medidas, embora tardiamente, anunciadas pelo Governo estão certas e pecam apenas por defeito. Doutro, tem sido inquestionavelmente admirável a solidariedade dos cidadãos. Quando tudo falha, resta a Humanidade e, essa, faz de facto milagres.

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