História de um assalto

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A ameaça do atual governo norte americano de que só se solidarizará com uma Europa desunida e entregue a regimes de extrema direita veio tocar a finados pela ideia de um Ocidente coeso e solidário. Neste contexto histórico, pensemos no que nos acontece aqui em casa: a ameaça da VASP de deixar de distribuir jornais em todo o interior do país, onde entretanto vão morrendo os periódicos regionais, constitui uma brutal ameaça para a nossa literacia e para a formação da opinião pública em geral. Parece que, a nível macro e a nível micro, tudo conspira contra uma vida em sociedade esclarecida e racional. Terá a democracia sido um sonho?

Entretanto, a nossa opinião pública e publicada preocupa-se com a criminalidade derivada da imigração.

Eu vivi em países considerados perigosos (Angola, Brasil, Índia) e atravesso hoje por vezes o Martim Moniz, que é considerado o Faroeste de Lisboa. Contudo, a única vez na vida em que fui assaltado à mão armada fui-o por um cidadão da pouco exótica cidade de Oliveira de Azeméis, branco, caucasiano e tudo, que adicionava a essas prendas de “português de bem” encontrar-se em liberdade condicional, para se reinserir socialmente.

Já foi há alguns anos, na Costa Vicentina, hoje animada pelos pobres trabalhadores indostânicos das estufas de Odemira, de quem temos ouvido falar não como criminosos, mas como vítimas. Bom, o rapaz de Oliveira de Azeméis (terra por que tenho o maior respeito e estima, cidade natal de Ferreira de Castro) dedicou o seu período de reabilitação em liberdade a furtar as coisas de valor que os banhistas tinham deixado nas toalhas ao ir para o banho, desde relógios a telemóveis e enchera um saco com esses bens. Quando me viu junto do carro, vindo das compras na vila, achou ter encontrado o seu transporte para Lisboa e encostou à minha barriga um ridículo canivete, exigindo-me as chaves do carro.

Hesitei entre dar-lhe um piparote ou fazer o que ele mandava, mas lembrei-me da regra de ouro da vida no Rio de Janeiro, onde eu então estava em posto, de nunca resistir a meliantes armados. Entreguei-lhe a chave do carro, mas o rapaz, pouco desenvolto, meteu a chave na porta do automóvel, em lugar de carregar no botão. Tal desencadeou um barulhento alarme e, para azar do jovem português de raiz, a GNR estava a ali a dois passos.

Preso o cidadão, foi anunciado na praia que os banhistas poderiam vir recuperar os seus bens ao posto da Guarda. Vieram todos, mas nenhum quis apresentar queixa. Face à situação, o guarda perguntou-me se queria eu apresentar queixa. O meu agressor suplicou-me então que não o fizesse, que o deixasse ir, porque estava em reabilitação e tinha-me até roubado o telemóvel para ligar à Reinserção Social a contar os seus progressos (trabalhara duas horas num café). Se eu o denunciasse, ele iria voltar para a prisão.

Pareceu-me ser esse o destino adequado para o rapaz e, acompanhado pelo GNR, fomos os três ao tribunal de Lagos. Ali, o preso pediu um advogado oficioso e o advogado veio. O rapaz pediu para ficar a sós com o advogado e, tendo-o conseguido, alegou estar muito calor e foi abrir a janela. De onde se atirou para tentar a fuga, mas estatelou-se em cima do carro de uma funcionária do tribunal e seguiu para o hospital, já sob prisão e com a minha queixa registada.

Conclusão: a funcionária viu negada pelo seguro a cobertura dos danos no seu automóvel, por não estar prevista em nenhuma apólice a queda de fugitivos sobre as viaturas estacionadas na frente do tribunal. Fez queixa e tive de intervir em favor do jovem guarda da GNR junto dos seus superiores, alegando que ele cumprira todas as regras e que talvez fosse bom o tribunal pôr umas grades nas janelas das salas onde ficam os detidos.

Do rapaz de Oliveira de Azeméis (cidade que muito prezo) nada mais soube.

Diplomata e escritor

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