Recordo-me de quando estive em Taipé visitar o Memorial de Chiang Kai-shek, o líder nacionalista chinês que perdeu a guerra civil contra o comunista Mao Tsé-tung e se refugiou em 1949 em Taiwan. Foi interessante ver desde a farda que o generalíssimo usava na guerra contra os japoneses, até à reconstituição do seu gabinete de trabalho, passando pelos carros à prova de balas. Mas se o presidente do Kuomintang, o partido nacionalista também conhecido como KMT, ressuscitasse ficaria surpreendido com o que é hoje a ilha que oficialmente se chama República da China. O processo de reformas iniciado depois da sua morte em 1975 evoluiu de forma tão dramática nos últimos anos que Taiwan não só é hoje uma democracia como é governada por um Partido Democrático Progressista (DPP, na sigla em inglês) que só por receio da reação de Pequim, e incerto sobre o apoio americano em caso de guerra, não avança com uma declaração de independência. Cada vez mais, primeiro sob a presidência de Tsai Ing-wen e agora com Lai Ching-te, a ilha tenta afirmar-se como Taiwan, reivindicando que apesar da cultura chinesa da esmagadora maioria dos 23 milhões de taiwaneses existe um sentimento de identidade forte e um desejo de seguir um caminho próprio.Surpreendentemente, talvez se o tal ressuscitado Chiang visitasse a atual República Popular da China se sentisse mais em casa. O país até pode oficialmente ser comunista, mas aquilo que é evidente é que existe um poder forte centralizado, encarnado pelo Partido Comunista Chinês (PCC), que comanda uma economia semicapitalista bem sucedida. Mude-se o PCC pelo KMT e talvez não ande muito longe daquilo que Chiang, que sempre foi um ditador, teria idealizado para a China se não tivesse sido derrotado, sendo que manteve a ideia de uma dia desembarcar as suas tropas no Continente e iniciar a reconquista.Chiang não ressuscitou. Mas os seus sucessores à frente do KMT parecem também estar seduzidos por aquilo que conseguiu a República Popular da China, hoje a segunda maior economia mundial. Uma delegação do KMT, agora o maior partido da oposição taiwanesa, participou num fórum em Pequim juntamente com representantes do PCC, uma demonstração de vontade de cooperação que irritou as autoridades de Taiwan, que veem a China como hostil e não esquecem os recentes exercícios militares em redor da ilha. “Embora a China continental e Taiwan tenham sistemas políticos diferentes, os povos de ambos os lados pertencem à mesma nação, são descendentes do imperador Yan e do imperador Amarelo, e devem apoiar-se mutuamente e cooperar para revitalizar a China”, afirmou o vice-presidente do KMT, Hsiao Hsu-tsen, para maior desagrado ainda de Taipé. Do lado de Pequim, o diretor do Gabinete para os Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado chinês, Song Tao, relembrou que o secessionismo não será tolerado. Esta visita do número dois do KMT poderá ser o ensaio geral para um encontro da presidente partidária, Cheng Li-wun, com o próprio Xi Jinping, presidente chinês e também secretário-geral do PCC. Desde 2015, com a cimeira Ma Ying-jeou - Xi Jinping em Singapura, reunidos na qualidade de líderes partidários, tem havido contactos regulares entre dirigentes do KMT e do PCC, incluindo uma visita a Pequim em 2024 do próprio ex-presidente taiwanês Ma, igualmente criticado na altura pelo governo de Taipé.É evidente que a atitude do KMT mostra não haver consenso em Taiwan sobre as vantagens de um caminho separado. Pode ser por verdadeira crença no ideal de reunificação chinesa, como tinha Chiang, ou por mero pragmatismo perante as ameaças de Pequim de reunificação pela força. Também entre os apoiantes do DPP há muita gente que prefere o status quo, ou seja esta situação indefinida que permite a Taiwan uma existência própria, mas sem declaração formal de independência e sem assento na ONU. Mesmo perdendo aliados diplomáticos na última década, por ação da China, Taiwan tem ganhado simpatias pela construção de uma sociedade democrática e próspera (o rendimento médio por habitante é bem superior ao dos 1400 milhões de chineses). E ainda recentemente a ilha, e a bandeira que vem da era do KMT de poder na China continental, tiveram uma exposição global graças à escalada do Taipé 101 pelo americano Alex Honnold, transmitida pela Netflix.As dificuldades sentidas pela fórmula “um país, dois sistemas” em vigor em Hong Kong e Macau, territórios devolvidos pelo Reino Unido e Portugal em finais dos anos 1990, impedem que sirva de base a uma reunificação negociada com Taiwan, desde logo uma questão histórica bem mais complexa. Mas nada impede que surjam outras formas de relançar uma relação construtiva entre as duas margens do Estreito de Taiwan, que permita a cada lado manter os seus objetivos de médio-prazo, preservando o status quo, e sobretudo evitando a guerra. Apesar da força militar de Taiwan, e da venda de armas americanas, é enorme o desequilíbrio frente à China em caso de conflito aberto, estando muito dependente da reação americana. Mas de que serviria à China uma reconquista de Taiwan, que trouxesse a destruição da ilha e também de partes da China Continental, além de uma possível guerra com os Estados Unidos e uma destabilização de toda a Ásia Oriental?Numa conversa telefónica esta semana, Xi terá alertado Donald Trump dos riscos de vender armamento a Taiwan, referência a um recente contrato de 11 mil milhões de dólares. O presidente americano tem vindo a adotar uma atitude de maior diálogo com a China e será interessante ver o que resulta da visita programada para daqui a dois meses. Outra visita a Pequim para ser seguida atentamente em Taipé, de forma a calibrar o rumo da sua estratégia de afirmação internacional. Entretanto, o presidente taiwanês já disse que as relações com os Estados Unidos "são sólidas como uma rocha".Mao morreu em 1976, faz este ano meio século. Chiang em 1975. Mas o conflito causado pela luta entre ambos pela China continua por resolver.