Na análise dos últimos actos eleitorais, verificou-se alguma consternação com o sentido do voto dos eleitores mais jovens, nomeadamente da sua captação pelas propostas caracterizadas (para mim de forma errónea) como “populistas”, em vez de as designar como demagógicas ou falaciosas. Perante isso, talvez fosse boa ideia revisitar qual foi o percurso educativo desta nova geração de eleitores e a travessia que fizeram, por entre sucessivas reformas educacionais que sempre se anunciaram como promotoras das mais elevadas qualidades cívicas nos alunos.Um dos problemas das reformas nas últimas décadas foi que, independentemente da facção política no poder, mais para a dextra ou para a canhota do espectro político, existiu uma evidente obsessão com a transformação da chamada “gramática escolar”, a par do culto do “sucesso” e da burocratização do trabalho docente. Em alguns momentos, em ligação com as novas tecnologias da informação, foi dado destaque às metodologias de ensino, ao “como ensinar”, mas raramente foi usado tempo com “o que ensinar”, excepto quando se tratou de menorizar os saberes disciplinares tradicionais, tidos como arcaicos, em especial os das Humanidades. Deixou de interessar a substância do ensino, reduzida cada vez mais ao “essencial” nas aprendizagens, assim como foi reduzido ao ridículo o espaço no currículo das áreas fundacionais da cultura e da herança humana, por se associar, nem sempre de forma correcta, esse legado às sociedades ocidentais.A “gramática da escola”, conceito popularizado nos anos 90 do século XX, centra-se em questões como a organização do tempo, do espaço e das pessoas nas escolas e não tanto no conteúdo do ensino. Privilegiou-se a forma de “escolarizar as crianças e adolescentes” ou de “fazer aprender os alunos”, em detrimento do que eles devem aprender, em especial nos primeiros anos e ciclos de escolaridade, quando se lançam as bases dos futuros cidadãos. Inebriados com uma retórica da “inovação” e alimentados com o desenvolvimento de novas tecnologias, considerou-se que os professores ou as escolas não ensinam, em particular se não forem matérias apelativas, ligadas ao concreto, ao presente e aos interesses dos alunos, negando a missão secular da Educação, matricial mesmo antes da “escola de massas” das sociedades ocidentais industriais, que é a de formar as novas gerações com base no Conhecimento acumulado e desenvolvendo o Pensamento para o aplicar em novos contextos.Ao contrário do que li recentemente, a escola não existe para “estar alinhada com o seu tempo”, mas para o transcender. Alinhar-se com o tempo, é perder a Memória e ficar incapaz de imaginar um futuro diferente. É ficar prisioneiro dos epifenómenos, da cascata de informação sem tratamento crítico e ser alvo fácil dos discursos e formulações simplistas e demagógicas. Depois, não vale a pena queixarem-se das opções dos novos eleitores. Professor do Ensino Básico.Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico