Marcelo recebeu o primeiro-ministro pela última vez. Da próxima, existirá um novo Presidente da República eleito, já não será a mesma coisa. Estamos a despedir-nos de um homem que tentou ser um farol num mundo baço, que foi empático num tempo desalmado, que ofereceu o melhor que tinha a um país viciado no paradoxo - continuamos a ser os que desbravaram mares nunca navegados, mas também os que ficaram a dizer mal dos que partiram.Talvez lhe tenha passado pela cabeça que a data era simbólica. Talvez nessa noite tenha voltado para Cascais de onde um dia, faz agora dez anos, saiu com o objetivo de unir os portugueses. De os proteger de um populismo que crescia como uma erva daninha. De estar presente como se nos pertencesse, como se o pudéssemos usar quando nos falhasse a confiança, a coragem ou o rumo.Marcelo falhou na maioria desses objetivos. O pior que podia acontecer, aconteceu. O mundo mudou. Tornou-se pior após a pandemia, mais egoísta, mais ressentido, menos cristão.Marcelo sofreu por isso. Como Guterres nas Nações Unidas, os dois incapazes de travar a barbárie. Como aliás Francisco, no Vaticano. Nenhum dos três tinha para oferecer o que o tempo pedia.Por isso, cada um com o seu peso e a sua dimensão, deixaram-nos a semente de uma rebelião de homens bons e que gostam e se preocupam genuinamente com as pessoas.Marcelo recebeu Montenegro pela última vez, mas continuará a estar disponível para nós. E tão solitário como antes, radicalmente sozinho entre um mar de gente que dele não se esquecerá. Consultor