Existe uma receita para a felicidade?

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Há perguntas que nos acompanham desde sempre, mas poucas são tão insistentes como esta: o que é, afinal, a felicidade? No episódio de De Polo a Polo, da National Geographic, Will Smith leva-nos numa viagem que não é apenas geográfica - é profundamente humana. E, curiosamente, aquilo que a ciência e a experiência de vida nos mostram converge num ponto essencial: a felicidade não é um destino individual, é um processo relacional.

Durante anos, habituámo-nos a procurar respostas dentro de nós, como se a felicidade fosse um exercício solitário de autoaperfeiçoamento. Mas talvez a pergunta esteja mal formulada. Em vez de “Como é que eu posso ser feliz?”, talvez devêssemos perguntar: “Como é que podemos ser felizes?”

A psicologia tem sido clara: o prazer importa, claro. Os pequenos momentos de alegria, de riso, de descanso, de beleza. Mas não basta. A felicidade exige conexão, vínculos que nos sustentam, relações que nos devolvem ao mundo quando nos perdemos de nós. E exige também significado - a sensação de que pertencemos a algo maior do que a soma dos nossos dias. E exige, ainda, a capacidade de nos rendermos, aceitar que não controlamos tudo, que a vulnerabilidade não é fraqueza, que a vida é feita de impermanência.

A série lembra-nos ainda de algo que, paradoxalmente, a modernidade nos fez esquecer: a importância da comunidade. Não apenas como rede de apoio, mas como espaço de construção de sentido. Somos seres sociais por natureza; isolados, sobrevivemos, mas não florescemos. A felicidade não se esgota no bem-estar individual - amplia-se quando é partilhada e se transforma em responsabilidade coletiva.

Por isso, talvez a verdadeira receita para a felicidade seja menos sobre perseguir sensações e mais sobre cultivar relações, pertencer, contribuir, estar presente. É um caminho que se faz com os outros.

No fundo, a pergunta que importa não é “Como posso ser feliz?”, mas sim: “Como podemos criar condições para que todos possamos viver vidas com sentido, ligação e alegria?”

A resposta não cabe numa fórmula simples. Mas começa sempre no mesmo lugar: no encontro.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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