Estupidez acima de tudo

Qual a característica mais marcante de Jair Bolsonaro?

A maldade não é má escolha, tendo em conta o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff, em que exaltou o torturador Brilhante Ustra, cujos métodos incluíam enfiar ratos nas vaginas das detidas, como ela. Ou tendo em conta que se babou de alegria ao saber da morte de um voluntário nos testes da Coronavac, vacina comprada pelo seu rival político, João Doria, governador de São Paulo (o voluntário morreu de overdose, sem relação com os testes).

A intolerância não é má escolha, tendo em conta que o hoje presidente preferia ver um filho morrer num acidente a assumir-se homossexual. E tendo em conta as piadas, impróprias até para um hominídeo do Paleolítico Inferior, sobre quilombolas (habitantes de refúgios de escravos), índios, asiáticos e mulheres, um dos seus principais traumas.

A loucura não é má escolha, tendo em conta que interrompeu o ministro da Educação para, do nada, mostrar preocupação com a amputação, por falta de água e de sabão, de mil pénis de brasileiros por ano (os pénis, como as mulheres, são uma das suas obsessões). E tendo em conta que interrompeu o Carnaval de 2019 para perguntar aos brasileiros o que era a prática sexual "chuva dourada".

A desonestidade não é má escolha, tendo em conta que foi eleito por fake news (a de que o rival Fernando Haddad queria fabricar biberões em forma de pénis - cá estão eles outra vez - foi apenas a ponta do iceberg). E tendo em conta que a cada comunicação ao país os fact checkers, as agências que verificam a verdade dos discursos dos políticos, entram em colapso por causa de tanta insana aldrabice.

A ganância não é má escolha, tendo em conta que foi expulso do Exército por, sem autorização dos superiores, pedir salários mais altos para a tropa em artigo na revista Veja. E tendo em conta que nos 28 anos de preguiça parlamentar - fez aprovar dois decretos no período - liderou um esquema de desvio dos ordenados dos assessores envolvendo 102 familiares ou amigos da família, segundo investigação do jornal O Globo.

A cobardia não é má escolha, tendo em conta que, em paralelo ao ataque aos vulneráveis, se declarou a Donald Trump, tal e qual aqueles meninos frouxos capazes de tudo para agradar aos que, na sua conceção, são os mais populares do liceu. E tendo em conta que a cada derrota política se esconde nas redes, que tanto usa para difamar, num silêncio amedrontado.

Mas a melhor escolha é a estupidez.

Vamo-nos deter na última semana - com o presidente do Brasil, os recortes temporais têm de ser curtinhos, caso contrário a quantidade de asneiras ganha proporções homéricas.

Na luta pela vacina - no caso de Bolsonaro tem sido a luta contra a vacina, que ele e os seus mais bovinos apoiantes dizem que não vão tomar -, garantiu uma única coisa, em letras maiúsculas, nas redes sociais: "[a Coronavac, a tal vacina chinesa patrocinada pelo rival político] NÃO SERÁ COMPRADA" Sem alternativa, acaba de comprar nas últimas horas 46 milhões de doses de Coronavac, humilhando-se perante Doria.

E o patético kit de prevenção contra a covid que vem vendendo ao seu gado foi desautorizado agora até pela agência de vigilância sanitária brasileira, composta por indicados seus, em direto nas televisões.

Como .é que um presidente tão mau, intolerante, doido, aldrabão, ganancioso e cobarde chegou a este cargo? Pela estupidez - jamais menosprezemos o poder dos estúpidos - de 57 milhões de eleitores.

Correspondente em São Paulo

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