À medida que o Natal se aproxima, regressa também a tradição das mesas opulentas, dos tabuleiros que transbordam e do habitual “faça-se mais um pouco, não vá faltar”. É um traço identitário. Acreditamos que abundância é sinónimo de afeto, generosidade e respeito. Contudo, por detrás desta prática cultural persiste um dado inquietante que não podemos continuar a ignorar: cada português desperdiça, em média, 183 kg de alimentos por ano, segundo dados de 2023. E mais perturbador ainda é saber que 67% desse desperdício ocorre nos lares, ou seja, cerca de 123 kg de comida são descartados anualmente por cada pessoa.Não se trata apenas de lixo. Trata-se de um problema estrutural que corrói recursos naturais, agrava emissões, compromete rendimentos e impõe um fardo às gerações vindouras. O desperdício alimentar é um reflexo do modelo de sociedade que perpetuamos. A mudança de hábitos é imperativa - e o Natal pode ser o momento simbólico para inverter a lógica do “fazer de mais”.A urgência deste debate é reforçada pelo Índice de Justiça Intergeracional 2025, do Institute of Public Policy da Fundação Calouste Gulbenkian, que avalia o país que estamos a construir para quem nos sucede. As conclusões são claras e preocupantes: após avanços até 2020, registaram-se recuos significativos em áreas essenciais ao bem-estar das gerações futuras - habitação, saúde e finanças públicas. A autonomia juvenil regrediu e o consumo de antidepressivos aumentou. Tudo somado, o relatório é inequívoco: o país que deixaremos será menos equilibrado e menos justo.Perante este cenário, reduzir o desperdício alimentar parece quase trivial: basta racionar melhor. É uma mudança simples, económica e capaz de poupar milhões. E aqui, a restauração e o alojamento turístico podem dar o exemplo. Apesar da perceção pública negativa, o Canal HORECA representa apenas 11,5% do desperdício alimentar, muito menos do que as famílias. Ainda assim, é sobre estes setores que recaem as imagens televisivas de contentores cheios, enquanto os caixotes domésticos permanecem invisíveis.Composto por 90% de microempresas, o setor enfrenta margens curtas, rotatividade de trabalhadores elevada e a incerteza diária da procura. Mesmo assim, muitos estabelecimentos investem em tecnologia - e até inteligência artificial - para prever consumos, ajustar compras, gerir stocks e minimizar sobras. Quando um restaurante pesa desperdícios, analisa padrões, ajusta fichas técnicas e doa excedentes, contribui para algo maior do que a sua própria eficiência: reforça a sustentabilidade coletiva.A legislação também evolui. A nova Diretiva-Quadro dos Resíduos impõe metas obrigatórias até 2030 - redução de 10% na produção e transformação e de 30% per capita no retalho, restauração, hotelaria e consumo doméstico. Mas será que as famílias conseguirão cortar 37 kg de restos por pessoa, por ano? Sim, desde que comecem já este Natal. Planear compras, calcular porções realistas, reaproveitar criativamente e congelar com método são passos simples.E se este Natal for celebrado num restaurante ou hotel - prática cada vez mais comum - que seja visto não como perda de tradição, mas como um gesto de valorização do que realmente importa: estar juntos. Ao escolher um espaço onde tudo está preparado, libertamo-nos das horas na cozinha e ganhamos tempo para conversar, rir e criar memórias. Quando a refeição terminar, levar as sobras não é apenas um ato de respeito pelos recursos e pelo trabalho de quem os preparou, é prolongar o sabor e o afeto para além da mesa, transformando cada prato reaproveitado num símbolo de consciência e cuidado. Porque o verdadeiro espírito natalício está na qualidade dos momentos partilhados e na responsabilidade que assumimos pelo futuro.Se queremos um país que trate melhor as próximas gerações, como nos lembra o Índice de Justiça Intergeracional, há que ponderar o que deitamos fora. Este Natal, deixo um convite: continuemos a pôr afeto na mesa, mas acrescentemos consciência e responsabilidade aos pratos. Porque cada refeição não desperdiçada é um presente silencioso para quem virá depois de nós.E termino com uma nota luminosa, digna do espírito natalício: segundo um relatório da Google, a Livraria Lello, no Porto, foi o destino mais pesquisado no Google Maps em todo o mundo. Este dado confirma que Portugal continua a seduzir o olhar global, mantendo-se no epicentro da curiosidade e do encanto. Que esta projeção internacional nos inspire a cuidar do que é nosso - começando pela forma como tratamos os recursos que nos sustentam. Afinal, como disse o Papa Francisco, “Desperdiçar comida é roubar da mesa de quem tem fome”. Vamos transformar este Natal num convite à consciência, à responsabilidade e à generosidade. Boas festas!Secretária-Geral da AHRESP