Vila do Conde é um extraordinário ponto de encontro de múltiplas referências da cultura portuguesa. José Régio disse no Guia de Portugal que é “uma daquelas vilas que têm alma”. Não por acaso, Antero de Quental descobriu aí um momento único de prazer, de saúde e de sossego de espírito, entre 1881 e 1891. Recorda-se o desvelo posto pelo senhor Castelo na preparação da casa para o poeta. “Isto por aqui é bonito, com o seu ar nobre e campestre e põe a gente numa disposição de espírito plácido e suave. Para envelhecer em paz era proximamente disto que eu necessitava” – como confessa a Alberto Sampaio. E as praias por onde se passeava ou se estendia ao sol tinham a voluptuosidade “que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz”.Aqui viemos à casa de Antero, na antiga Praça Velha, sede do Centro de Estudos Anterianos, para falar com bom público do Dicionário da Geração de 70 com Augusto Santos Silva e Ana Maria Almeida Martins. É sempre com emoção que se entra neste lugar mítico, que nos recebe com uma pequena mostra intitulada “O que nos vale são os poetas” de Beatriz Sendin com figuras em miniatura feitas de tecido. No pequeno jardim, recordo as palavras do eremita: “O quintal é muito pequeno, com mais 4 a 6 árvores fica cheio: os muros são proporcionais ao tamanho. Já vês (dirige-se ainda a Sampaio) que se reduz a pouco o que me é preciso para operar a transformação filosófica do quintal do senhor Castelo”. Nessa década dourada, além de todos os espíritos que animam Vila Conde, desembarcaram na pequena e saudosa estação ferroviária vultos como Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Tomás de Melo Breyner, Luís de Magalhães José e Alberto Sampaio, António Feijó, Jaime Magalhães de Lima, João Lobo de Moura. Quem os esperava? O poeta “róseo e reflorido com as lapelas do casaco de alpaca atiradas para trás galhardamente”. Aqui foram escritos alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa nesta terra de acolhimento, onde encontramos em cada esquina as maiores referências da nossa cultura. “Linda vila recolhida e grave, mas tão cheia de carácter”, assim a designou Luís de Magalhães. A memória de Camilo ou as origens de Eça de Queiroz ficam nas nossas conversas, mas eis que nos aproximamos do nosso tempo. A grande hospitalidade da cidade leva-nos a recordar próximo da inesquecível Velha Casa a obra de um artista filho da terra, Júlio Reis Pereira, apenas Júlio ou Saúl Dias, o irmão de José Régio, na sua relação próxima com o modernismo em Portugal, em mostra notável dirigida por Bernardo Pinto de Almeida e Laura Garrido e Caetano. Estão lá os maiores, lado a lado com Júlio, na sua Galeria – ele, poeta e pintor mal compreendido e precocemente arrumado “numa arca demasiado pequena para o seu real tamanho”. E assim percebemos o que para muitos é difícil de entender. A modernidade, como as coisas que valem a pena, obriga a correr os riscos do entendimento, a ir além do fácil e do comum. A realidade que nos cerca é complexa e diversa relativamente ao que se julga à primeira vista. Será possível viver sem ideias? A geração de Antero e dos seus obriga-nos a deixar o conformismo do fácil e do passageiro. À sombra do inesquecível Convento de Santa Clara é fundamental pensar a cultura e a vida como realidades incindíveis. Por isso, Régio falou da alma desta terra. Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura