Envelhecer em Portugal

Há uns anos, estreou um filme muito premiado de título "Este País não é para Velhos". Em Portugal, o título seria um pouco diferente - "Este é um País de Idosos". É verdade, somos uma sociedade altamente envelhecida, no contexto mundial e mesmo no Europeu, e as projecções não são animadoras. E isto deve fazer-nos pensar - no país que queremos ter, e no país que queremos construir para os nossos mais velhos. De certa maneira também, para nós daqui a mais ou menos tempo.

Diz o INE que nos próximos 50 anos Portugal perderá população, dos atuais 10,3 para 8,2 milhões de pessoas; que o número de jovens diminuirá de 1,4 para cerca de 1,0 milhões; e que o número de idosos (mais de 65 anos) passará de 2,2 para 3,0 milhões. O índice de envelhecimento em Portugal quase duplicará, passando de 159 para 300 idosos por cada 100 jovens. (Em 1961, havia 27 idosos por cada 100 jovens.).

É certo que isto não acontece só em Portugal. Na maioria das economias desenvolvidas, o número de habitantes continua estagnado ou mesmo a decrescer. O Instituto de Berlim para a População e o Desenvolvimento observa que "todos os países europeus estão a envelhecer". Contudo, nem todos "estão a encolher" - os países "com mais emigração e onde nascem poucas crianças vão encolher de forma radical". Esta última realidade é a de Portugal, que "na União Europeia vista a prazo é o segundo país mais envelhecido".

O decréscimo da população portuguesa não se deve, pois, tanto à mortalidade, que também diminui ou se mantém estável. Com o número de habitantes e a mortalidade a diminuírem em simultâneo, a população está a envelhecer rapidamente, isso sim, em resultado do aumento da emigração para outros países, onde os portugueses vão atrás de novas oportunidades.

Olhando para a evolução destes três elementos (envelhecimento da população, diminuição da natalidade e aumento da emigração de jovens portugueses), facilmente percebemos que estamos perante uma das transformações sociais mais importantes do século XXI, com implicações em todos os sectores da sociedade - no mercados laboral e financeiro; na procura de bens e serviços, incluindo a habitação; nos transportes e na protecção social; e nas estruturas familiares e nos laços entre gerações.

A Portugal, neste contexto, não faltam motivos para preocupação. O "galopante envelhecimento da população portuguesa é um factor de grande insegurança", disse recentemente, numa conferência, o professor da Universidade de Harvard e demógrafo americano David Bloom.

Perante este cenário e as previsões que são feitas, sabendo-se que a população ativa está cada vez mais a diminuir e a população idosa a aumentar, perguntamos sempre como terá o país capacidade para pagar esta despesa com o envelhecimento. Mas há outras perguntas não menos importantes a fazer.

Para Bloom, as respostas terão obrigatoriamente de ser novas, pois não existem exemplos históricos de como lidar com este acentuado envelhecimento das sociedades. Novas políticas públicas, apoiadas no desenvolvimento da tecnologia e da medicina, e dando especial atenção a questões como o envelhecimento ativo, a independência física, económica e social dos mais velhos, assim como uma aposta na saúde centrada na prevenção e diagnóstico precoce, poderão fazer parte das soluções, na visão de Bloom.

Mas há mais problemas, mais concretos e mais impressionantemente perto de nós. Apenas um exemplo - que, claro, não é apenas um exemplo. É um flagelo em grande escala. O último Censos Sénior da GNR, realizado em 2017, dava conta de mais de 45 mil idosos sinalizados por viverem sozinhos ou isolados, e dados da mesma altura revelam que cerca de 40 por cento da população portuguesa com mais de 65 anos se encontra sozinha durante oito horas ou mais por dia.

Isto é: segundo os últimos números disponíveis, quase um milhão de idosos enfrenta uma situação de solidão ou isolamento, um problema que afeta mais homens que mulheres (e que está, em parte, ligado ao nível de escolaridade).

Não precisamos de dramatizar muito para dizer que estes números não incomodam - assustam. Desde logo, atendendo a que a solidão e o isolamento social dos mais velhos gera sofrimento, desprendimento pela vida, estados depressivos que podem ser fatais.

No fundo, a questão central, numa sociedade humana e civilizada, é esta: como tratamos, como podemos valorizar os nossos mais velhos? O que é preciso mudar? Provavelmente, vale a pena discutir a criação de outras estruturas e modelos assistenciais. Faz sentido termos lares públicos, por exemplo, para combater os lares ilegais e clandestinos?

É que podemos ser um país com muitos idosos mas esquecê-los e não os apoiar nem aproveitar, social e individualmente, o que sabem - isso é que é uma perspectiva de mentes gastas e ultrapassadas. Este país tem de ser também para os idosos. Isso é que é um olhar novo, apontado ao futuro.

Responsável pelas Relações Institucionais da DECO PROTESTE

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