A tempestade que atravessou - e continua a atravessar - Portugal deixou marcas que vão muito além dos estragos visíveis. Há perdas materiais, sim, e há também perdas emocionais: a sensação de vulnerabilidade, o medo que se instala no corpo, a incerteza que se cola aos dias. Situações como esta podem ser potencialmente traumáticas, porque abalam a perceção de segurança e de previsibilidade, expondo a fragilidade daquilo que tantas vezes assumimos como garantido.Nestes momentos, a rede de apoio torna-se essencial. Precisamos de sentir que não estamos sozinhos e que há mãos que seguram as nossas quando o chão parece ceder. O apoio emocional feito de presença, de escuta, de disponibilidade - é tão importante quanto o apoio prático.A solidariedade não é um conceito abstrato, é uma força que se concretiza em gestos concretos, em olhares que dizem “estou aqui”, em vizinhos que, de repente, se tornam família.É fácil cair na tentação de ficar sentado no sofá, a lamentar o que se perdeu, a olhar para a televisão como se o ecrã pudesse devolver o que desapareceu. Mas a passividade não cura, não reconstrói, não transforma. É preciso agir. É preciso colaborar. Cada pessoa tem um papel, por mais pequeno que pareça. A reconstrução - emocional e material - faz-se em comunidade, com cada um a contribuir com o que tem: tempo, braços, palavras, alimentos, presença.O altruísmo emerge, tantas vezes, nos momentos mais difíceis. E é ele que nos lembra que, apesar da tempestade, existe sempre um lugar onde podemos ancorar: o outro. A capacidade de cuidar e de nos deixarmos cuidar é o que nos permite atravessar o trauma sem ficarmos presos nele.Portugal já mostrou, repetidamente, que sabe unir-se quando importa. Agora, mais uma vez, vemos um país que estende a mão, que não vira a cara, que se levanta para ajudar. A verdadeira força de uma comunidade revela-se quando cada pessoa escolhe não ficar parada, mas participar ativamente na reconstrução que todos merecem e de que todos precisam.Porque reconstruir é, sempre, um verbo coletivo, deixo um agradecimento muito sincero a todos os que, de alguma forma, colaboram neste processo em que, juntos, nos reerguemos. Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal