A Europa foi acusada muitas vezes - com razão - de estar demasiado confortável para pensar de forma desconfortável. Amparou-se num sistema internacional previsível, terceirizou a sua segurança e adiou, graças a um comércio global favorável, decisões estruturais essenciais.Perante uns Estados Unidos cada vez mais erráticos e imprevisíveis, a União Europeia optou por uma estratégia de adaptação cautelosa: contornou o risco de uma escalada comercial transatlântica com efeitos inflacionistas e, acima de tudo, comprou tempo. E é verdade, após 25 anos de negociações, a Europa assinou, finalmente, o acordo com o Mercosul, que irá criar uma das maiores zonas de comércio livre do mundo. Esse esforço de adaptação, porém, não resolve tudo. Quando instrumentos económicos deixam de servir a gestão de interesses e passam a ser usados como instrumentos de pressão política entre aliados, o problema deixa de ser comercial e torna-se estrutural.Ameaçar um aliado com tarifas ou recorrer à intimidação económica arrisca a comprometer a arquitetura de confiança que garantiu estabilidade ao espaço euro-atlântico durante décadas. É justo reconhecer que Trump teve impacto na NATO. A sua pressão levou muitos aliados a encararem com maior seriedade o investimento em Defesa, aproximando-se de metas ambiciosas de despesa. Mesmo quem rejeita o seu estilo confrontacional admite que houve resultados concretos. Contudo, é precisamente essa lógica que ameaça esvaziar a Aliança do elemento que lhe confere legitimidade política. Quando um aliado sugere anexações ou recorre à coerção económica contra outro, atinge os alicerces dessa confiança. E quando os próprios membros começam a questionar se a sua soberania é respeitada dentro da Aliança, a credibilidade externa fica inevitavelmente comprometida e nenhuma dissuasão é convincente quando a lealdade interna já não é garantida.Há razões fundadas para que o Ártico esteja no centro das preocupações estratégicas. O peso geopolítico da região está a aumentar e requer uma resposta mais consistente, coordenada e sustentada. A Gronelândia ocupa um ponto-chave nesse tabuleiro: concentra matérias-primas críticas e desempenha um papel central na arquitetura de mobilidade e defesa da NATO. Ao mesmo tempo, o degelo acelerado está a redesenhar rotas marítimas, com implicações profundas para o comércio internacional nas próximas décadas. Nada disto, porém, justifica a pressão política ou a instrumentalização do comércio como mecanismo de intimidação entre aliados. A Gronelândia não tem de se tornar um fator de rutura. Tratada com inteligência estratégica, pode antes tornar-se um símbolo da capacidade de adaptação da NATO a um novo contexto geopolítico.Chegou ao fim a lógica europeia de contenção e apaziguamento numa relação transatlântica excessivamente personalizada em Trump. A decisão do Parlamento Europeu de congelar o acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos é um primeiro indício de que Bruxelas começa a reconhecer que a credibilidade externa exige limites claros e consequências visíveis. A União dispõe de instrumentos económicos, regulatórios e políticos de peso. Terá de demonstrar que está disposta a acioná-los para defender os princípios que sustentam a relação transatlântica, mesmo quando isso implica custos políticos no curto prazo. Eurodeputada do CDS, membro da Comissão Justiça e Assuntos Internos