Entre a utopia e o desastre

São numerosos os exemplos de as guerras chegarem a uma paz cobertas por uma utopia de novo futuro, o que se verificou no fim de cada uma das Guerras Mundiais que feriram o mundialismo ocidental. Por vezes consentindo que o pessimismo lúcido afaste as esperanças das propostas. Quando da paz da guerra de 1914-1918, circulou o comentário atribuído a um general alemão segundo o qual o que se assinava era uma suspensão provisória dos combates. A paz da guerra mundial de 1939-1945 determinou uma esperança de futuro que possibilitou a criação da ONU, a confiança nas Declarações dos Direitos Humanos e o programa notável da UNESCO, embora a adesão ao anticolonialismo tenha frequentemente provocado combates militares que causaram custos humanos severos.

Acontece que neste ano de 2021, do século sem bússola em que nos encontramos, vão-se multiplicando os desastres do sonhado futuro da ONU, e mais instituições que com ela se articularam, estão mais uma vez na história a exibir o perfil de uma utopia: o globo atingido pela guerra caracterizada pela covid-19, a Europa a ser olhada frequentemente de abalada entre a capacidade de reassumir algum do passado que lhe deu a denominação de luz do mundo, ou se vai desfalecer pelos factos incontroláveis, as Américas longe do passado criador com agressões severas, a segurança e a defesa a requerer criatividade pela distância entre a ordem sonhada e os desastres surpreendentes, as imigrações a evidenciarem que uma nova ordem tem de ser criada, por isso com a direção internacional fragilizada, a nova Rússia, e a nova China, a conduzir para uma nova criação da segurança e defesa, o mundo árabe e a África apontados por vezes como ameaçados por uma "epidemia em surdina".

Países que tiveram, como Portugal, uma intervenção poderosa na ocidentalização, enfraquecidos os poderes de governança pela evolução querida, não podem deixar de conseguir definir, e assumir, um futuro que não é seguramente a repetição, mas passado que nenhuma etnia ou nação pode ignorar a benefício de inventário. Quando a China procura repor um estatuto internacional que a coloca no primeiro plano das potências, é oportuno não assumir a própria opinião do seu governo maoista, e verificar, por exemplo, palavras do almirante Sarmento Rodrigues, atento à evolução de Macau (1958): "Consciente do seu papel humanitário, seguro da sua razão de existir, Macau executa sem desfalecimento, intimoratamente, através dos mais conturbados períodos, uma das mais belas obras de fraternidade levantadas no Ocidente: Nela se encontram, confraternizam e se conhecem gentes diferentes, civilizações diferentes, aqui se fundiam, na condição generosa da nacionalidade portuguesa, homens da mais variada proveniência étnica, costumes mais diversos, acrescentando e enriquecendo o tesouro de migalhas, que desde há séculos os nossos maiores circulam carregando e espargindo."

Foi este conceito que dinamizou a capacidade de criar a CPLP, não obstante os erros do passado que não pode avaliar-se a "benefício de inventário", uma posição responsável e humanista de assumirem o fim da sua definição colonial e até o custo dos combates. Tem relevância verificar que todos são hoje países marítimos, e que a atual situação dos mares torna difícil desenvolver, mas não porão de lado no seu projeto de nova nação. É também por isso que se encontra mais respeitado o conceito, que também tem apenas no passado, de que "a língua não é nossa, também é nossa", e a fraqueza das adesões ao tratado. O número de estudantes que procuram nas nossas instituições de ensino a formação que valorizou, de facto também praticou que o passado histórico não se assume a benefício de inventário, mas aceitando o que fez parte do saber procurado. Parece surpreendente que este comportamento humanista tenha ultrapassado o que esse passado também tem de conflituoso, deixando memória que não desaparecerá.

O anúncio de Macron, querendo reformas sociais, antes do fim do seu mandato, não tem a dimensão do anúncio do presidente Joe Biden que, de acordo com as intervenções no processo eleitoral, vai procurar unir as democracias do mundo. Mas não obstante as dificuldades sofridas, não esqueceram o conjunto de valores que acompanha "a maneira portuguesa de estar no mundo", e que foi compreendida pela adesão real dos novos governos, ainda que longe da prática, mas com ética de futuro. Designadamente a tremenda violência de que sofre o norte de Moçambique, o que desperta é a solidariedade de valores para repor a paz. Justamente as iniciativas que caracterizam, ou nacionalmente ou internacionalmente, a intervenção de Joe Biden, é, do ponto de vista global, construir uma nova ordem mundial exigida pelos desastres do que se transformou em utopia da ONU.

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