Eleições intercalares nos Estados Unidos - e agora? *

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As eleições intercalares nos Estados Unidos praticamente terminaram: Os republicanos ganharam a Câmara dos Representantes, com dificuldade, os democratas mantiveram o Senado, com dificuldade. Estas eleições refletem o estado atual do país: dois partidos praticamente iguais, cada vez mais distantes um do outro, os eleitores não repudiaram nenhum dos lados, elegeram um congresso dividido.

Durante os próximos dois anos, haverá um governo disfuncional, um impasse. Qualquer iniciativa por parte da maioria numa Câmara será bloqueada pela maioria opositora na outra.

A maioria mínima dos republicanos na Câmara dará um enorme poder ao pequeno número de membros de extrema-direita da Câmara, dificultarão muito a vida aos seus próprios líderes, mas também a Biden, e ao país. A liderança da Câmara republicana vai iniciar inúmeras investigações acusatórias sobre Biden, a sua família e a sua administração. Usarão a única autoridade da Câmara para aumentar o limite máximo da dívida para provocar o caos, ameaçando programas importantes dos democratas, e poderão, inclusive, iniciar um processo de impugnação contra Biden. Nenhum destes esforços chegará a bom porto, mas obrigarão a administração de Biden a despender tempo e energia a defender-se, em vez de avançar na sua agenda.

CitaçãocitacaoQuando abdicamos dos princípios, cedemos às piores autocracias e entramos sempre em campo para perder.

De pés e mãos atados internamente, Biden poderá virar-se mais para uma agenda internacional, onde terá maior margem de manobra. Levará o poder republicano crescente no Congresso a um menor empenho dos EUA na defesa da Ucrânia? Existe acordo bipartidário suficiente para manter o apoio dos EUA à Ucrânia, mas, provavelmente, a um nível um pouco mais baixo.

Qual é o impacto das Intercalares na corrida presidencial de 2024? Todos especulam, ninguém sabe, dois anos na política é uma eternidade, muitos imprevistos acontecerão. Muitos dos candidatos apoiados por Trump perderam, por isso, a atual visão convencional é que Trump, que acaba de declarar a sua candidatura para 2024, ficou seriamente enfraquecido, e é provável que seja substituído pela estrela em ascensão, Ron DeSantis, o governador republicano da Florida que ganhou a reeleição de forma decisiva.

Eu constato: i) nos últimos 7 anos, subestimar Trump tem sido sempre um erro, ii) uma das maiores aptidões de Trump é destruir os seus adversários, ele direcionará toda a força do seu talento contra DeSantis e qualquer outro adversário republicano, iii) DeSantis nunca foi testado no contexto nacional, iv) Trump tem um firme domínio sobre a base do Partido Republicano, apresentou-lhes resultados, deu-lhes o Supremo Tribunal mais conservador em quase um século, adoram-no com uma intensa lealdade, perdoam-lhe os seus defeitos, e no sistema de primárias dos EUA, os seus milhões de seguidores dedicados são os que, em cada estado, escolherão o candidato republicano em 2024.

E Biden? Após os dois primeiros anos de realização legislativa mais bem-sucedidos de uma presidência em décadas, reforçou a sua posição ao levar os democratas a um resultado muito melhor do que o esperado nas Intercalares, reduzindo (mas não eliminando) os pedidos para que renunciasse e cedesse o lugar a um candidato mais jovem. Não conseguiu convencer o país da qualidade da sua liderança, e da do Partido Democrata, mas se Trump for o candidato presidencial republicano em 2024, Biden continua a ser o melhor candidato democrata a vencê-lo, mais uma vez.

Se tivéssemos de adivinhar hoje, e adivinhar hoje é certamente um erro, as eleições de 2024 teriam os mesmos candidatos de 2020, certamente o pior dos resultados para o país.

Autor de "Rendez-Vous with America, an Explanation of the US Election System", Presidente do American Club of Lisbon.
Opiniões aqui expressas são pessoais e não vinculam o American Club of Lisbon.
Artigos prévios em Inglês e comentários disponíveis no website: https://rendezvouswithamerica.com

* O último de uma série de artigos semanais sobre as eleições intercalares nos EUA.

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