Num recente artigo, vimos como o endividamento excessivo não acompanhado por uma rácio adequada de capitais próprios ou de rendimento gerado no prazo das obrigações financeiras assumidas pode conduzir à insolvência de empresas em setores com promissor futuro (ex: a ferrovia americana na segunda metade do séc. XIX). Relembre-se que o setor tecnológico é hoje a locomotiva do mercado financeiro americano (em 2025, as chamadas “7 magníficas” representaram c. 35% do valor total do índice S&P 500 e terão sido responsáveis por 80% dos ganhos da bolsa americana), bem como o principal pilar de sustentação da própria economia norte-americana (relatórios da S&P Global mostram que os investimentos em tecnologia e data centers corresponderam a c. 80% do crescimento económico dos EUA no primeiro semestre de 2025). Os vultuosos investimentos comprometidos para o desenvolvimento de inteligência artificial (AI) nos EUA – de centenas de milhar de milhões de dólares (mM$) – pressupõem um retorno dos investimentos num prazo indeterminado, embora os gestores dessas empresas prometam rendimentos a curto prazo. Mas será tal asserção realista? A estratégia [da maioria] das empresas tecnológicas passa por fazer investimentos diretos a montante na cadeia de valor. Sendo compreensível que as tecnológicas queiram evitar ser responsabilizadas pelo aumento significativo dos preços da eletricidade e da água nos locais onde instalam os seus data centers, é muito duvidoso que investir diretamente em centrais de produção de energia para os alimentar seja o mais inteligente do ponto de vista financeiro; seguramente não o é quando aumenta significativamente a exposição financeira / dívida da tecnológica. Por outro lado, um relatório recente do MIT revela que, apesar da onda de entusiasmo pela AI generativa – >80% das organizações inquiridas experimentaram ferramentas como o ChatGPT da OpenAI e o Microsoft Copilot, enquanto quase 40% relatam uma implementação completa – e apesar de serem um auxílio à produtividade para os trabalhadores, 95% das organizações referem não ter obtido um impacto organizacional significativo, nem gerado um retorno mensurável do investimento. Apenas c. 5% dos projectos-piloto de AI integrada está a “extrair milhões em valor”, constatou o relatório. Todavia, o mais preocupante decorre da opção [feita pelas empresas americanas] pela prioridade dada ao desenvolvimento de AI geral (AGI), em vez de se optar por AIs específicas. No passado recente, opções apresentadas pelas tecnológicas como revolucionárias redundaram em fiascos (ex: a aposta da Meta no metaverso, onde gastou 77 mM$, sem retorno). Durante quanto mais tempo irão os investidores continuar a acreditar que excelsas AGIs estão iminentes, que as mesmas irão ter imensa procura no mercado e se traduzirão em significativas vendas para as empresas que as criem? Consultor financeiro e business developer www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira