E o povo português, também vai vencer a segunda volta das eleições presidenciais?

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De patinho feio no PS, e após uma longa hibernação política, António José Seguro voltou para vencer a primeira volta das eleições presidenciais. É obra, convenhamos! Seguro, com a quase certeza de ser o próximo Presidente da República, será sempre um garante da solidez do regime democrático. Na sua campanha eleitoral “não fez ondas” e sabemos como o povo português aprecia os políticos que não fazem ondas. Ganhou por isso.

Mas o que o espera em Belém são tempos conturbados que não vão dar para “boiar” em mar calmo.

Como referiu Marcelo Rebelo de Sousa, os próximos tempos vão ser desafiantes, seja a nível nacional ou internacional. Vai ser preciso algum “killer instinct”, atitudes rápidas e sólidas, pouco espaço para longas reflexões, pouca conversa e muita assertividade nas decisões.

Do outro lado do Atlântico o mais estúpido presidente que os Estados Unidos conheceu continua numa lógica de lançar a confusão no mundo. Agora a fava parece ter saído à União Europeia com a ideia fixa de Trump de ocupar, ou comprar, a Gronelândia. Os países europeus que enviaram tropas para a ilha já estão a ser ameaçados com novas tarifas. Da União Europeia veio a promessa de uma resposta firme. Está, pois, instalada a tensão entre os que deviam ser aliados e estão a situar-se, paulatinamente, em lados diferentes da barricada.

O próximo presidente é também o Comandante das Forças Armadas. O que vai Portugal fazer em relação à Gronelândia? Vai seguir o exemplo dos seus parceiros da União Europeia e enviar tropas para a ilha? E sobre a Ucrânia! O próximo ocupante de Belém aceita participar numa força de interposição com militares no terreno se essa for a decisão da Europa? É na componente internacional que vão colocar-se os maiores desafios ao próximo Presidente da República. É possível que no horizonte do mandato presidencial que se segue surjam questões sensíveis e decisivas à sobrevivência da União Europeia. A NATO vai desfazer-se? Vai ou não formar-se um Exército único europeu? E a União Europeia abandonará os seus egoísmos nacionalistas e instituir-se como Federação de Estados Europeus?

António José Seguro terá de enfrentar os desafios que se avizinham no horizonte e que vão muito além de simples garantias da solidez do regime democrático?

Quanto a André Ventura, ainda pode vencer a segunda volta das eleições? Sim pode. Se pegarmos na matemática e fizermos simples contas de somar, a direita / ultra direita nos seus diferentes matizes (Chega, IL e AD) soma dois milhões e setecentos mil votos. A esquerda na mesma tabuada soma um milhão e novecentos mil votos (PS, Livre e PCP). Há, teoricamente, para Seguro um défice de oitocentos mil votos, ainda que possa contar com uma parte da almofada dos 700 mil votos de Gouveia e Melo.

Mas isto é a simples frieza da matemática, que não conhece a lógica da política. A realidade política deverá ser, totalmente, diferente e, seguramente, a direita vai dividir os seus votos por Ventura e Seguro. Este último está a receber significativos apoios de figuras da direita.

André Ventura não quer ser Presidente da República, mas se vencesse as eleições é bem provável que Luís Montenegro tivesse de “arrumar as botas” como primeiro-ministro. Seria difícil a Montenegro resistir às exigências que seriam feitas por André Ventura em Belém. A juntar às tensões internacionais teríamos uma enorme instabilidade política em Portugal que poderia resultar na queda do governo e eleições antecipadas.

Montenegro foi um dos grandes derrotados nestas eleições. A escolha que fez de Marques Mendes não esteve à altura dos desafios e do leque de candidatos que surgiram a disputar a contenda eleitoral. Marques Mendes foi apanhado na névoa da indefinição da sua configuração profissional e isso foi fatal para as suas pretensões de chegar a Belém.

As três semanas desta campanha da segunda volta vão ser dolorosas. Três semanas de campanha eleitoral para uma segunda volta é um exagero que, constitucionalmente, terá um dia de ser corrigido.

Do lado de André Ventura vamos assistir a uma campanha onde vai falar-se de tudo menos dos preocupantes desafios nacionais e internacionais que se colocam no horizonte. André Ventura está a colar António José Seguro ao que de pior já existiu no PS e ao que ele chama de “tralha socialista”. Ficará, certamente, a falar sozinho dado que a estratégia de António José Seguro passa pela indicação de soluções para os problemas do país, falar directamente para os portugueses e evitar responder às provocações de Ventura.

Para trás ficaram dois bons candidatos. Cotrim de Figueiredo e Gouveia e Melo revelaram reunir boas condições para o exercício do cargo presidencial. Mas isso é passado. A democracia funcionou e veremos, no futuro, se os portugueses também vão sair vencedores nesta segunda volta das eleições presidenciais com as escolhas que fizeram.

Jornalista

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