O preço da liberdade é a eterna vigilância.Thomas Jefferson Há épocas em que nos sentimos arrastados por forças a que não sabemos dar sentido, que se empenham em destruir os projetos que fizemos e os alicerces do mundo em que vivemos.A única resistência que nós, bichos da terra tão pequenos (Camões), podemos opor a esses ciclos da História, tão impiedosos e cruéis como os da Natureza, está numa fórmula muito simples, mas que devemos entender e saber analisar: a democracia política liberal.Este conceito é diferente da política económica liberal, não diz respeito à liberalização dos mercados e à desregulamentação da economia, mas sim à liberdade dos cidadãos e à sua capacidade de estabelecer regras decentes, que permitam afastar propostas liberticidas.Nós conseguimos levar à segunda volta das eleições presidenciais um candidato decente, que respeita as regras do jogo democrático, contra alguém que as quer destruir, para as substituir pelo arbítrio autoritário das ditaduras.Nós não queremos deixar que a nave siga sem nós, levada pelas correntes marítimas e pelos ventos que não controlamos: queremos ser cidadãos capazes de opor a nossa vontade a destinos urdidos por cima de nós.A ideia de liberdade e o conceito de decência deverão nortear as nossas opções num momento em que se acumulam os perigos, a ganância de uns a conjugar-se com a fraqueza de outros: uma atitude firme e segura, intransigente com os atentados à liberdade e à democracia que se preparam e nem sequer já se escondem, é nosso dever, é o que estes tempos difíceis nos exigem.Mostraremos que somos capazes de não ceder às antigas barbáries, disfarçadas de apelos do novo. Mostraremos que, através de todas as épocas e de todas as mudanças, há valores de liberdade, respeito pelos outros, solidariedade e inclusão social, que nunca deixam de ser atuais e exigem a nossa incansável vigilância.E continuaremos a defender estes princípios e valores contra poderosas correntes que empurram por todo o mundo para o autoritarismo, o belicismo e o racismo. Nós já experimentámos o autoritarismo fascista e a Guerra Colonial. Não temos saudades desses tempos.Ontem, vi alegria nas pessoas do meu bairro, o alívio de quem escapou a uma ameaça. Mas não é assim: dia 8 de fevereiro teremos de mostrar uma vez mais a força das nossas razões contra a força irracional que cavalga os ressentimentos e os rancores para os aliciar contra a liberdade.Não compreendo os que se dizem liberais e ao mesmo tempo são capazes de apoiar os que se esforçam para destruir as nossas liberdades.Não compreendo os descontentes que imaginam que a ditadura tudo resolverá, com um golpe mágico, um Deus ex machina, que nos trará a felicidade a domicílio, assim nós deixemos que sejam eles a definir, condicionar e limitar essa felicidade.Não compreendo os que atacam o “sistema” para tentarem vir impor um outro sistema, bem mais opaco e blindado contra qualquer mudança.Não devemos nós, democratas, deixar de criticar o que corre mal e tentar emendar o que não funciona: mas não será um regime, que proíbe ou limita as críticas, que será capaz de corrigir o que vai mal.E não, hoje não consigo falar de outras coisas. São evidências, mas nem todos partilham estas evidências. São princípios mínimos de solidariedade social e respeito mútuo, mas nem todos partilham estes princípios. São condições básicas para uma sociedade decente, mas nem todos partilham esta decência. ADENDA: A morte de Maria Alzira Seixo é uma enorme perda para os estudos literários em Portugal e um profundo desgosto para os seus amigos, em que minha Mulher e eu nos contamos. Diplomata e escritor