Estivesse o TGV já em marcha e teríamos tido, por estes dias, a alta velocidade afogada em Coimbra. A zona para onde está projetada a futura estação intermodal, que se estende até à beira-rio, foi uma das afetadas pela subida do Mondego. Este “pormenor” pode parecer hoje insignificante face a tanto sofrimento e destruição provocados pelo mau tempo em tantas zonas do país, mas diz-nos muito sobre o que estamos a viver. Para lá das ondas de choque imediatas em curso, há uma questão de fundo que se impõe e que se chama ordenamento do território. O tema é lembrado sempre que acontece uma tragédia do género, sejam as cheias de inverno ou os fogos de verão, mas rapidamente esquecido de novo por quem tem a responsabilidade de zelar por ele até ao “azar natural” seguinte.Não é por falta de avisos. Como não será também desta vez. Basta atentar ao que têm dito os diversos especialistas em ambiente, clima ou planeamento do território nos últimos dias. Aqui no DN, por exemplo, a bióloga Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, titular da Cátedra da UNESCO para a Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, lembrava coisas tão elementares como esta: “Nós artificializámos as bacias hidrográficas e os rios, e acreditámos que estavam sob o nosso controlo. (…) Construímos um progresso na base da destruição permanente da natureza, sobretudo nos últimos 50 a 60 anos, e esse desligamento da natureza tem custos.”Ou João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Nova FCT, especialista em Política Ambientais, também aqui no DN: “Por que razão Alcântara inunda? Porque está sobre uma ribeira. Por que razão se chama Sete Rios a Sete Rios? Porque ali confluíam sete ribeiras. (…) Parte das nossas cidades está construída sobre leitos de cheia, que naturalmente inundam periodicamente.” E deixou novo lembrete para memória futura: “Temos de levar a sério os planos e parar de construir onde não devemos. Quanto ao que já existe, não defendo que se deitem cidades abaixo, mas nalguns casos haverá que realojar pessoas que vivem em zonas de alto risco.”Tudo isto é conhecido, estudado e cartografado. O que falta não é ciência, nem diagnósticos, é coerência política. E os exemplos mais recentes mostram que continuamos, apesar de tudo, a andar no sentido contrário, desde a polémica nova Lei dos Solos ao recente episódio entre o ministro da Agricultura e o Instituto de Conservação da Natureza e Floresta.Invoca-se por vezes o exemplo dos Países Baixos, país construído em zonas inundáveis. Mas esse argumento esquece o essencial da lição: ali, tudo foi pensado em função da água, com planeamento rigoroso e investimento permanente. Não há improviso, nem atalhos. E mesmo assim, hoje, devolvem espaço aos rios.O que convém percebermos o quanto antes é que os acontecimentos destes dias são um resultado previsível de décadas de decisões tomadas contra o conhecimento disponível. Até quando? Editor do Diário de Notícias