Tenho algumas dúvidas de que depois do debate de terça-feira, e durante o tempo que ainda vai durar a campanha eleitoral, a esfíngica postura institucional de António José Seguro, na sua certeza de ser próximo o Presidente da República, lhe traga muitos mais votos. E também duvido de que André Ventura não suba ao valor mágico dos 30% que pretende atingir.Nas três televisões, na terça-feira, houve dois debates distintos. Um, o de António José Seguro a concorrer para Presidente, com a vitória assegurada. E existiu um outro debate, o de André Ventura a correr numa pista diferente e a colocar-se na pole position como candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas, sejam lá elas em que data forem.A generalidade dos comentadores nas televisões deu a vitória a António José Seguro e apenas Rui Calafate na TVI/CNN avançou para um empate.E há alguma justificação para que o resultado seja de empate entre Seguro e Ventura. Ambos conseguiram o que pretendiam neste debate. Seguro prossegue o seu caminho institucional rumo a Belém. Ventura continua a “engordar” a sua capacidade eleitoral como futuro candidato a primeiro-ministro.Seguro tem de ter algum cuidado quando fala de alguns dos principais problemas de Portugal. É o caso da Saúde. Propor um pacto na Saúde juntando todos os partidos políticos numa sala do Palácio de Belém é uma missão impossível. Mais fácil é conseguir tranquilidade dentro de um saco de gatos.Ventura surgiu no debate com uma “fatiota” nova. Menos populista, mais institucional, mais calmo, e menos gritaria. Com uma vantagem acrescida. A vestir a pele de futuro candidato a primeiro-ministro, teve oportunidade de desenvolver com maior detalhe as suas propostas, face à “camisa de forças” a que António José Seguro está sujeito devido à sua postura institucional enquanto candidato presidencial. No futuro não lhe cabe governar, mas sim influenciar.Mas será, também, aconselhável a Ventura estudar melhor os dossiers. Nestas coisas de assuntos de Estado o improviso funciona mal. Propor a futura nomeação do procurador-Geral da República pelo colectivo de juízes, pelo Ministério Público ou mesmo pelos juízes do Tribunal Constitucional, “não lembra ao careca”. Este foi um improviso infeliz resultante do facto de António José Seguro o ter encostado às cordas quando o gelou com a pergunta a quem ia afinal responder, politicamente, o PGR.Seguro fez bem em recusar três debates, como queria Ventura. Se este debate já foi repetitivo, chato, sem novidades assinaláveis, com cada um dos oponentes a falarem para os respetivos eleitorados, a realização de mais debates não fazia sentido, porque nenhum dos debatentes ia sair do seu registo. Novos debates seriam uma espécie de “relógio de repetição” político das mesmas propostas e das mesmas narrativas políticas.A cenografia das chegadas dos candidatos foi um interessante exercício de semiótica política.Ventura com uma claque barulhenta, muitas bandeiras, beijos e abraços, um exemplo acabado de uma acção de campanha eleitoral, espécie de intróito para as próximas eleições legislativas que não devem sair da cabeça de Ventura.António José Seguro chegou discreto, apenas acompanhado por um assessor, num carro já de perfil presidencial, um dossier volumoso debaixo do braço. Nestas coisas o gesto também conta!Durante o debate António José Seguro deixou escapar um lapso populista quando disse a Ventura qualquer coisa como: o senhor é deputado pago para falar e eu futuro presidente pago para trabalhar. Ora, são ambos pagos pelo Orçamento de Estado para falarem e trabalharem. E ponto final.A ignorância de André Ventura foi exemplificada na pergunta disparada por António José Seguro quando este último o questionou sobre o número de desempregados em Portugal. Ventura ficou mudo. Como é possível que um candidato que corre para primeiro-ministro não saiba quais os números do desemprego em Portugal. Ó homem, vá lá estudar melhor os dossiers.....Uma coisa chata nestas eleições presidenciais é o número de “adesivos” de última hora que apareceram em público. Há-os de todas as cores, de todos os quadrantes políticos, velhos e novos.Diz o povo que só se aquece quem se chega à lareira....Mas convenhamos que não deixam de ser surpreendentes alguns casos de súbita aderência. Ver Cavaco Silva declarar apoio a Seguro é estranho. E Paulo Portas idem, idem, aspas, aspas. Compreendemos a lógica, mas que é estranho é. E o Largo do Rato também foi abundante em material adesivo. António Costa, que diz ir votar em Seguro, deve estar com um saco de gelo na cabeça.... Fico à espera da primeira audiência entre os dois....Depois há ainda os “adesivos” com a velha marca Costista. Marta Temido, Augusto Santos Silva, João Soares, que em tempos disseram de Seguro o que Maomé não disse do toucinho. Mas é assim a política. Convém estar sempre do lado dos que cheiram a poder....Este foi, pois, um debate que não divergiu muito dos anteriores.António José Seguro ganhou como candidato a Belém, com postura de Estado, colocação de voz e vestimenta presidenciável.André Ventura também ganhou, ao marcar pontos como futuro candidato a São Bento. Propostas mais pormenorizadas, maior detalhe nos conteúdos programáticos, mais combatividade, maior entusiasmo.Portanto, ganhou um, mas o outro também ganhou. Jornalista