De pobres a pobrezinhos

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Acontece por vezes que a mesma palavra ganha sentidos contraditórios, o que se agrava quando o pluralismo de sentidos corresponde ao facto de que o dever de justiça, e até de caridade, para com o próximo é atingido, ficando em risco a sua validade anterior. Parece ser o que se passa com o que recebeu o nome de "Medicina sem Fronteiras", um valioso movimento de solidariedade, que foi criado em 22 de dezembro de 1971, juntando a intervenção médica que tentava enfrentar a proteção dos atingidos pela guerra no Biafra (1967-1970), um grupo de médicos, acompanhados por jornalistas que se dedicavam ao Paquistão Ocidental que sofreu um "ciclone" em 1970, que não conseguiram vencer. Subitamente o tema foi levado à opinião pública francesa, por intervenção importante do professor Rony Brauman, no jornal Le Monde de 17 de janeiro de 2022. Curiosamente este notável médico e universitário teve intervenção cooperativa e solidária com o bispo Tutu da África do Sul, recentemente falecido. O movimento dos Médicos sem Fronteiras teve a sua presidência (1982-1999), publicando importantes estudos em que se incluem Penser dans l"Urgence (2006) ou Guerres Humanitaires? Mensonges et Intox (2018).

Infelizmente, a importância do tema é a sua reprovação da ingerência, na região em causa, da intervenção externa porque sustentar "a ingerência não é um direito, mas uma prática reservada aos mais poderosos". Este movimento teve mais na vontade de o grupo intervir, por 1970, pelos jornalistas e Jean-François Revel e Olivier Todd, sendo objetiva a entrada ilegal e pacífica da equipa médica nas áreas de guerra. A reportagem citada criou suficientes apoios do progresso dos profissionais, mas o que desperta hoje é a importante opinião do professor Brauman, e do seu companheiro e amigo que foi o bispo Tutu da África do Sul. Ambos receberam prémios da melhor reputação, sendo que o bispo parece ter conseguido melhores resultados de validade de doutrina da relação entre confissão da culpa que pede e recebe o perdão do que em conseguir eficácia na própria justiça internacional, com aviso preocupante quando o então presidente Trump, que negara a cooperação na Assembleia Geral da ONU, manifestou uma alegria, que teve eco mundial, quando o Tribunal Penal Internacional publicou o acórdão que anunciava não investigar qualquer crime internacional, porque nenhum Estado colaborou... Os EUA nem sequer eram membros do tribunal.

A vasta circulação e influência na espécie de responsabilidade internacional parece justificar completamente o aviso ao mundo da intervenção do ilustre Rony Brauman, que parece ter sublinhado, depois de os diplomatas dos EUA e da Rússia se encontrarem, sem acordo, em Genebra, em nome dos experientes cultores da 3.ª Roma (Rússia), e da cautela da fiel à 1.ª Roma (presidente dos EUA), que evidenciou procurar que há razões a mais para lidar com algumas das poucas cooperações soviéticas que tenham acordo de segurança. Quando o Reino Unido saiu da União, esta decidiu tratar da defesa europeia; a saída do governo alemão da histórica Angela Merkel, substituída por Olaf Scholz, fez crescer as inquietações do governo dos EUA. A imagem da ordem mundial não oferece segurança, com respeito pela justiça natural ou, como recomendou o perseguido Dalai Lama, seguir o Papa. Procura responder a tal inesperado e caloroso apelo o facto de o Papa Francisco chamar todas as Religiões do mundo a reprovarem as guerras, e também os frequentemente poucos governantes que enfrentam regressar aos tradicionais confrontos que as rivalidades inspiram, sem muitos a afastarem o dever de respeitar a "terra casa comum dos homens", não apenas para os milhares atingidos pelo desastre, mas também forçados a perder a alegria de viver.

Não é admissível consentir que a legalidade internacional assumida por ONU, UNESCO, e Justiça Internacional, seja abandonada por associações do mundo com nenhuma ética histórica, com duração e respeito. É frequente termos de suportar as vozes tecnicamente apoiadas pelos desenvolvimentos mais técnicos a criar orientações que apenas servem condenáveis ambições políticas, como que esquecendo os deveres humanos da última memória chamada memória da atribuída desobediência aos alemães, cuja declaração formal tem sido frequentemente esperada.

O mundo não é apenas um cemitério nem a mortandade dos inocentes uma tarefa dos mais poderosos. Como ficou juridicamente estabelecido, depois do desastre de 1939-1945 foi salvaguardar a "terra casa comum dos homens", e os direitos humanos acima do credo dos interesses, cujo desastre transforma os pobres em pobrezinhos (Guerra Junqueiro).

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