Da sociedade de aprendizagem

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De alguma forma convergindo com o pensamento Keynesiano no respeitante ao papel da poupança, Solow procurou, em 1956, demonstrar que um aumento da taxa de poupança não conduziria, necessariamente, a um aumento da taxa de crescimento das economias a longo prazo. Para o autor, a taxa de crescimento do nível de actividade económica seria, sobretudo, determinada pela taxa de crescimento da produtividade.

Stiglitz e Greenwald recordam dois artigos publicados por Kenneth Arrow em que o autor explicava a relevância do progresso tecnológico, chegando mesmo a analisar a aprendizagem a partir da prática e enveredando pelas preocupações subjacentes à teoria do crescimento endógeno.

Um dos aspectos que se pretende analisar é o papel dos mercados e do Estado no que concerne à aprendizagem, sendo legítima a pergunta sobre se existe ou não eficiência na alocação de recursos quando a inovação é endógena, tornando-se necessário saber qual o papel da política na promoção da eficiência económica. Problemas como os atinentes às indústrias nascentes e às externalidades que poderão ser induzidas a partir do que se convencionou designar por “sector moderno” protegido merecem a nossa atenção.

Para Schumpeter, os mercados mais competitivos, com um número superior de unidades empresariais, seriam tendencialmente menos inovadores, uma vez que o autor associava a capacidade de pesquisa e de investigação ao “stock” de capital ou ao recurso a fontes de financiamento, pelo que, a título de exemplo, a inovação teria maiores e melhores condições para se desenvolver em mercados monopolistas ou oligopolistas, muito embora o nível de bem-estar se apresentasse menos elevado.

Não pretendendo questionar o brilhantismo de Schumpeter, manda a verdade reconhecer que, apesar de as empresas de grande dimensão em mercados amplos apresentarem maiores facilidades em termos de investigação, também, por outro lado, poderão não ser sensíveis a “impulsos” no sentido de inovar, apostando na aprendizagem e na criatividade, precisamente porque não estão confrontadas com a concorrência ou, dito de outra forma, com a “rivalização”.

Faria mais sentido falar-se nos mercados contestáveis, em que, havendo um número reduzido de empresas, existiria, todavia, a possibilidade de as mesmas serem contestadas na sua hegemonia a partir de fora.

E tal resulta dos próprios mercados contestáveis decorrerem da globalização, a qual está, por sua vez, na origem da indispensabilidade de adopção de uma nova estratégia por parte das empresas tidas como dominantes num mercado.

Mas, se é verdade que não podemos dissociar os avanços da aprendizagem da globalização, também não se apresenta menos relevante o papel do Estado na promoção de uma sociedade de aprendizagem.

A aprendizagem decorrente da pesquisa e da investigação levadas a cabo por grandes empresas, se bem que meritória, tende a ser internalizada (e, por conseguinte, capturada) pelas empresas, enquanto que a aprendizagem promovida pelo Estado tende a ser externalizada, isto é, posta à disposição dos diversos agentes intervenientes no mercado.

É verdade que a inovação realizada pela empresa A, por maior que seja a sua influência no mercado, acabará por ser conhecida e assimilada por empresas concorrentes ou por potenciais interessados no mercado, a longo prazo.

Mas, o desfasamento temporal daí resultante conduz à assimetrização, sendo certo que existe, também, a médio e longo prazos, o risco de se constatarem” externalidades em cadeia” que conduzem a fenómenos de excessiva concentração do poder económico.

Do que se disse decorre a importância do papel do Estado na aprendizagem, difundindo a inovação (externalizando-a) e promovendo, na medida do possível, o acesso generalizado à dita aprendizagem. Tal poderá conduzir à redefinição das teorias convencionais das vantagens comparativas, sendo certo que a investigação realizada por Krugman, a partir do modelo de diferenciação do produto de Dixit-Stiglitz, tornou evidente que, mais importante do que as dotações de factores de uma economia, poderá ser o estado de conhecimento existente “à partida” e as “capacidades de aprendizagem”.

Por outro lado, fará, ainda, sentido falar-se na relevância da “Global Governance” na aprendizagem, sendo certo que, para tal, importaria começar por definir o conceito, admitindo-se como adequada a construção teórica de Thomas Weiss, para quem “Global Governance is the combination of informal and formal values, rules, norms, procedures, practices, policies and organizations of various types that often provides a surprising and desirable degree of global Order, Stability and Predictability”. [“A governança global é a combinação informal e formal de valores, regras, normas, procedimentos, práticas, políticas e organizações de diversos tipos, que frequentemente proporciona um grau surpreendente e desejável de ordem, estabilidade e previsibilidade a nível global.”]

Nem mais, nem menos…

Economista e professor universitário

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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