D. Sebastião de Rezende. Exemplo missionário

Lembremos, em primeiro lugar, que o tempo real da ação portuguesa em África, na tarefa da colonização, não pode contar-se desde a data das navegações em que os portos de apoio à marinha eram as referências, mas não o interior onde seguramente havia europeus instalados. De facto, foi depois da Conferência de Berlim, mas sobretudo depois da guerra de 1914-1918, que a tarefa ganhou relevo.

Na primeira data, porque a Europa era regida sobretudo por Impérios, incluindo a Alemanha, a Inglaterra, o Império Austro-Húngaro, o Império da Rússia, e o Império Otomano, o que secundarizava jurídica e politicamente as terras coloniais, consideradas como situadas no "resto do mundo", e sem intervenção ativa na trama internacional. No período da assinatura da Concordata, que pacificou a consciência católica, e o Acordo Missionário, consagrador da missão colonizadora e evangelizadora entregue às Missões, foi quando se notabilizaram Bispos como D. António, Bispo do Porto, D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula, e finalmente D. Sebastião de Rezende, Bispo da Beira.

Este último, que conheci quando visitei Moçambique, na década de cinquenta, para preparar o estudo que Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar, me encomendara sobre o sistema prisional, ficou para sempre na minha memória como referência de autenticidade. Ainda o visitei, em Roma, durante o Concílio Vaticano II, e já então se parecia "com as velas do altar, que dão luz e vão morrendo". O seu compromisso com a autenticidade levou-o, durante o exercício do seu ministério em África, a exigir mudanças estruturais que todas tinham que ver com a dignidade humana e nada com a estrutura do Estado. Os temas principais que diziam respeito à condição das populações eram a relação com a cidadania, o ensino, tendo como paradigma principal a orientação do Concílio, a leitura da mudança dos tempos, e a coerência da mudança com a doutrina conciliar. Os seus conflitos com a prática, não apenas da sociedade civil, mas também da governança, atingiram frequentemente o nível judicial.

Depois da visita a Roma, apenas tive a possibilidade de o ver, pela última vez, no Hospital do Ultramar em Lisboa, consciente do escasso tempo de vida que lhe restava, e esperando transporte para Moçambique. Pediu para nos deixarem apenas na companhia do Padre Silva Rego, para me aconselhar leituras, meditações e persistência. Sem pudores nossos na manifestação das emoções que as suas palavras provocaram, explicou que tinha pressa de partir e chegar vivo à Beira, onde desejava ficar enterrado. Foi o primeiro enterro ecuménico do continente africano, com a participação de todas as confissões, e a lamentação geral dos nativos pela perda. Consegui reunir num volume intitulado - D. Sebastião de Resende - Profeta em Moçambique as suas principais intervenções.

Em 1994 fui entregar um exemplar a Sua Santidade João Paulo II, que não pode conter a emoção quando lhe contei quem fora o Bispo que perdemos. A sua terra prestou-lhe homenagem com uma estátua em cuja inauguração discursei. Infelizmente, tendo a Doutrina Cristã sido a orientadora da Democracia Cristã, com intervenção principal na criação da União Europeia, essa corrente política não teve em Portugal a importância que a doutrina teve naquela formação, sendo o exemplo o pouco conhecimento de D. Sebastião.

Para dar-lhe o relevo, que a história não pode omitir, será necessário lembrar o ambiente político que se viveu em Portugal no que respeita à separação entre a Igreja Católica e o Estado, antes de a última guerra mundial, de 1939-1945, ter implicado o fim do Império Euromundista, no qual se destacavam, como titulares de parcelas a Holanda, a Bélgica, a França, a Inglaterra e Portugal. A ambição e legitimação desse regime imperial foi orientador do movimento republicano, finalmente vitorioso em 1910, levou à participação dolorosa da República na guerra de 1914-1918 para Portugal estar presente na Conferência da Paz sem perda de território, e à resistência do governo corporativo, com graves sacrifícios da sociedade civil, pelos combates que todos os Estados titulares do Império Euromundista travaram.

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