Continuam a marcar-se os (pretos) com ferro quente

Identificar uma pessoa como (preta) é racismo. O erro na notícia da Lusa, em que a deputada Romualda Fernandes é assim identificada, é o insulto não ter sido visto antes de chegar a todas as redações. Reparem, José Pedro Santos não viu o insulto e o insulto ganhou a dimensão de um escândalo, quer do ponto de vista jornalístico, quer do ponto de vista político. Esse é o erro que levou um jornalista sério a assumir a sua responsabilidade e a demitir-se das funções de editor de política. Em muitas páginas online da comunicação social o insulto foi amplificado, porque ninguém viu. É um erro mais comum do que seria desejável, porque tudo é feito a correr.

Se o editor tivesse visto e, em consequência, tivesse impedido a notícia de ser publicada com aquele insulto, o racismo existia na mesma, mas nós tínhamos sido poupados. Mais importante que qualquer um de nós, neste caso a deputada Romualda Fernandes teria sido poupada a um insulto, que magoa como ferro quente a entrar na carne. Ainda assim, esta hipótese só teria sido indiscutivelmente melhor se houvesse a certeza de que o racismo, na agência Lusa ou noutra empresa qualquer, manifestado desta forma, teria consequências. O problema é que a maior parte das vezes não tem. O racismo continua a marcar as vítimas, com o silêncio cúmplice dos não racistas.

Há sempre um copo meio cheio que é igualmente um copo meio vazio, e nós precisamos de ver esse copo nas duas perspetivas. Sim, há uma consciência cada vez maior de que o racismo tem de ser combatido sem tréguas e sem desculpas, mas também há cada vez mais racistas a tomar consciência de que há uma certa impunidade na forma criminosa como tratam os que são diferentes. Não se pode agir de forma politicamente correta, considerando que um insulto racista cabe no direito à liberdade de expressão.

O racismo não começa na discriminação que leva a que algumas etnias ou nacionalidades estejam impossibilitadas de alugar casa em determinadas zonas do país, impossibilitadas de atingir determinados cargos públicos e políticos ou a fazer carreira em muitas empresas, estas são as consequências de um racismo que muitos teimam em dizer que não existe. Começa muito antes, na forma como guardamos na nossa memória as características dessas pessoas, porque, quando a informação mais importante é a cor da pele, nasce torta a nossa relação com eles.

Sim, precisamos de falar de racismo. Precisamos de separar as águas e escolher de que lado estamos. Não há um meio caminho. A única forma de não ser racista é ser antirracista, é não tolerar que outro ser humano possa ser discriminado, seja de que forma for, por causa da cor da sua pele. As palavras doem e têm uma história que lhes dá significado. Pretos eram os escravos que chegavam marcados à Bahia ou que lá eram marcados quando eram vendidos. Não é tolerável que no século XXI continuemos a marcar as pessoas pela cor da sua pele. Estava bem quente o ferro com que se escreveu (preta) para identificar a deputada Romualda Fernandes. Não deixemos que fique esquecido, não deixemos que se repita.

Jornalista.

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